Haneen Maikey: Por que devemos boicotar o Orgulho Gay em Tel Aviv

Credito: Pinkwatching Israel
Credito: Pinkwatching Israel

Ativista palestina queer fala sobre a discussão de gênero e sexualidade na questão Palestina/Israel

Por Haneen Maikey, na Newsweek

Tradução e revisão por Mariane Gennari e Berenice Bento

Eu sou uma palestina queer que tem trabalhado incansavelmente na última década pela diversidade sexual e de gênero, bem como pela visibilidade LGBTQI na sociedade palestina. E estou empenhada em lutar pela justiça para todas as pessoas. Então, por que eu estou convocando um boicote internacional do Orgulho Gay em Tel Aviv neste mês de junho?

O Orgulho Gay de Tel Aviv é fortemente patrocinado pelo governo israelense e é cinicamente implantado para desviar a atenção da Ocupação das terras palestinas e da violação diária dos direitos palestinos.

Do que eu estou falando? Bem, o governo israelense investiu fortemente em uma campanha de propaganda, chamada “Brand Israel”, que usa eventos e festividades culturais para retratar uma “face mais bela” de Israel como um lugar liberal e bem receptivo à comunidade gay. Isso é feito para encobrir e manter o sistema de violência e discriminação racial de Israel, consagrado em dezenas de leis contra os nativos palestinos, sejam queers ou não.

As autoridades israelenses interessadas em “criar a marca da nação” lideraram a campanha “Brand Israel” para tentar mudar a visão de Israel no exterior como um Estado militarista e opressivo, que enfrenta uma crescente pressão por seus abusos em direitos humanos, passando, então, a ser visto como um lugar atraente para o turismo e o investimento, digno de apoio político por liberais ao redor o mundo.

O Embaixador israelense de Nova Iorque e ex-comandante militar Ido Aharoni liderou a campanha ao reunir vários ministérios do governo israelense, incluindo o Ministério das Relações Exteriores e o gabinete do Primeiro-ministro, para trabalhar com especialistas em relações públicas e marketing com o objetivo de melhorar a imagem de Israel.

De acordo com o próprio site oficial do consulado de Israel, Aharoni está preocupado principalmente com os “métodos de criação da marca da nação” – procurando gerar “uma mudança de paradigma na percepção da imagem pública de Israel”.

Enquanto isso, o porta-voz da comunidade LGBTQI do município de Tel Aviv, Yaniv Weizman, fala abertamente sobre transformar visitantes gays e “todo turista estrangeiro” em “um embaixador” de Israel.

Nos últimos 10 anos, o número de turistas homossexuais internacionais em Israel aumentou dez vezes, passando de 6.000 em 2005 para mais de 60.000 em 2016. Este não é o resultado de uma vida noturna excepcionalmente vibrante, mas sim dessa deliberada e reconhecidamente eficaz campanha de propaganda patrocinada pelo governo para fazer um uso cínico da cultura gay a fim de mascarar ou de fazer a “lavagem rosa” (“Pinkwashing”, em inglês) da violência constante contra o povo palestino. Essa violência inclui a realidade diária de uma ocupação militar brutal que completa 50 anos neste mês, justo durante o Orgulho Gay de Tel Aviv.

Os ativistas israelenses LGBTQI abraçaram os esforços de propaganda do governo aceitando financiamento e deixando sua luta pelo respeito e pela igualdade ser cooptada pela campanha “Brand Israel”. Eles estão voluntariamente servindo como embaixadores dos esforços israelenses de lavagem rosa em todo o mundo. Além disso, o triste relacionamento acrítico do movimento LGBTQI com o governo israelense fica claro com os seus esforços para reformar o exército israelense e torná-lo mais aberto à comunidade LGBTQI, sem reconhecer a violência diária que o mesmo exército comete contra palestinos. Também é evidente quando os israelenses LGBTQI tentam ganhar eleições como representantes gays de partidos políticos de direita, ao invés de lutar para desmantelar tais partidos e suas políticas governamentais brutais e discriminatórias.

À medida que a Parada do Orgulho de Tel Aviv se desenrola neste fim de semana, milhões de palestinos ao lado, na Cisjordânia ocupada e em Gaza, marcam 50 anos de vida sob um domínio militar israelense sufocante que lhes nega qualquer direito político ou civil e controla quase todos os aspectos de seus dias. Imagine um exército estrangeiro hostil que controle sua vida e a vida de sua comunidade durante meio século, roubando suas terras e construindo assentamentos ilegais sobre ela, destruindo casas, negócios e terras agrícolas e impedindo você de viajar livremente para estudar, trabalhar, receber cuidados médicos ou visitar sua família e amigos.

Imagine viver cercado por postos de controle militares e um muro quatro vezes maior que o Muro de Berlim e, em alguns lugares, duas vezes mais alto. Imagine esse poder estrangeiro repetidamente usando força brutal, incluindo bombardeios e ataques, para impor sua regra repressiva. Imagine tudo isso, e você terá um vislumbre do que a ocupação militar israelense tem significado para milhões de palestinos.

Enquanto isso, os palestinos que vivem dentro de Israel continuam sendo submetidos por dezenas de leis racistas que tem legitimado seu status inferior desde o estabelecimento de Israel em 1948. Desde então, estamos enfrentando uma política crescente de desenraizamento de nossas comunidades palestinas em Israel de hoje, enquanto os refugiados palestinos são negados do direito estipulado pela ONU de retornar para as casas e terras das quais foram expulsos durante o estabelecimento de Israel.

Não haverá paz duradoura ou justa até que os palestinos que vivem dentro de Israel, na Cisjordânia ocupada e em Gaza recebam total igualdade em sua pátria e os refugiados palestinos tenham garantido o seu direito legal de retornar.

Como uma ativista palestina queer, eu sou encorajada pelo fato de que, pelo segundo ano consecutivo, ativistas palestinos LGBTQI e seus aliados no movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) estão pedindo um boicote ao Orgulho Gay de Tel Aviv e eventos relacionados tais como o TLVFest, reconhecendo-os como uma manifestação de lavagem rosa israelense para obscurecer e normalizar os crimes e violações de direitos humanos israelenses.

Nossos esforços estão rendendo frutos. Uma “onda” de cancelamentos de convidados internacionais atingiu o Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv, por exemplo.

O premiado cineasta sul-africano John Trengove, cujo filme está programado para o evento na noite de abertura do festival, cancelou sua participação, escrevendo: “Eu tenho acreditado que, enquanto as circunstâncias atuais em Israel prevalecerem, um boicote rigoroso contra TODAS as iniciativas financiadas pelo governo são necessárias. Como um sul-africano, tenho experiência de primeira mão sobre como os boicotes ajudaram a promover a transformação democrática e, portanto, decidi adicionar meu nome e voz à iniciativa de boicote a Israel”.

Junta-se a Trengove um número crescente de artistas, sindicalistas, ativistas de igreja, acadêmicos, estudantes e outras pessoas do mundo que apoiam as aspirações do movimento BDS para garantir liberdade, justiça e igualdade para os palestinos.

O meu trabalho no movimento queer palestino me ensinou que a solidariedade LGBTQI nunca deve ser feita à custa de outras lutas emancipadoras, incluindo a luta queer palestina contra a discriminação racial institucional, que atende à definição da ONU de apartheid, e contra a ocupação militar israelense. Eu sei que não há uma porta cor-de-rosa através do muro ilegal e racista de Israel que acolhe palestinos queer enquanto oprimem os outros.

Minhas lutas se interseccionam e não podem ser separadas. Eu rejeito o uso da minha identidade queer para apagar outros espaços de opressão ao meu redor. Você ficará do lado certo da história, comigo?

Haneen Maikey é o co-fundadora e diretora da “AlQaws pela diversidade sexual e de gênero na sociedade palestina”, uma organização de base, palestina LGBTQI. Maikey também faz parte do “Pinkwatching Israel”, lançado por ativistas queer palestinos e árabes para expor o que chamam dos esforços de relações públicas de Israel para encobrir suas violações dos direitos humanos, retratando-se como um lugar progressista pró gay.