“House” esculacha a ditadura da ética

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Os fãs respiram aliviados. Novos episódios da série médica mais aclamada do planeta começaram a ser gravados na semana passada. Apesar de especulações sobre descontinuidade, House entrará, a partir de setembro, nos Estados Unidos, em sua sétima temporada. Os brasileiros, porém, terão que aguardar até o primeiro semestre de 2011.

Criado por David Shore e originalmente exibido pela Fox desde 2004, o teledrama estrelado por Hugh Laurie alcançou, em 2008, o topo dos programas mundialmente mais assistidos: 80 milhões de espectadores em 66 países. Além do sucesso de público, acumula premiações e elogios da crítica.

A que se deve, afinal, o sucesso do clínico arrogante e niilista cujo sobrenome intitula esse campeão de audiência? Muitas poderiam ser as respostas: produção cuidadosa e sofisticada, atores refinados e carismáticos, roteiros criativos e bem-humorados. Cada episódio e cena parecem ser tratados com esmero digno de Francis Ford Copolla, talvez o melhor marceneiro da história do cinema.




Também a originalidade da trama poderia ser uma boa explicação para o fenômeno. Ao contrário de algumas séries médicas mais antigas, o enredo não se desenvolve em paralelo ao drama de saúde e à luta por sua cura. O próprio processo de diagnóstico e tratamento se constitui no nervo exposto de House, abordado como suspense típico de romances policiais e inspirado no Sherlock Holmes de Conan Doyle.

Mas não são apenas razões estéticas que dão vigor ao programa. O personagem central, um anti-herói sarcástico e insensível, provoca os espectadores a reagirem sobre a tensão entre ciência e moral. Gregory House fere quase todo o tempo as normas da ética médica, atropelando o que estiver na sua frente para identificar corretamente a doença e eliminá-la como a um inimigo no campo de batalha.

Suas atitudes são uma constante violação de conduta com pacientes e familiares, colegas e superiores. Submete tudo e a todos ao objetivo de sua profissão, mesmo que o preço a pagar seja o desrespeito a quem o cerca e aos portadores do mal que obstinadamente se dedica a abater. Simplesmente porque não pode haver obstáculo moral à ação científica.

House não atua dessa forma por carreirismo ou vantagens materiais, apenas por compromisso com sua causa. Médico consagrado, vive e trabalha como um estóico. Dirige carros velhos ou motocicletas. Mora em apartamentos simples e antigos. Não ostenta riqueza, somente excentricidades. Tampouco admite complacências que contrariem seus princípios, que aos demais se apresenta como estranho código amoral.

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Eventualmente porque o personagem encarne o axioma maquiavélico sobre os fins justificarem os meios. Seu olhar sobre regras é utilitário. Como se fossem um pacto de convivência que, muitas vezes, bloqueia ou atrapalha a guerra contra enfermidades. Quando é conveniente para sua ação, as respeita. Mas não teme ultrajá-las sem piedade nos momentos que se colocam como empecilhos.

Comparado a outros heróis de novelas médicas - geralmente bonitos, generosos e amistosos -, o doutor House é refém da misantropia. Ainda que trabalhe em equipe, quase sempre rejeita aproximações pessoais. Seus vínculos são com ideias e resultados, que se sobrepõem a sentimentos e afetividades.

A parábola com a política parece inevitável. Gregory House subordina ética à ciência da mesma forma que a esquerda, por exemplo, é acusada pelos liberais de submeter moral à ideologia. A narrativa da série, pelos passos do protagonista, de fato referenda como hipótese a natureza essencialmente conservadora da moralidade, ainda que seja um indispensável marco civilizatório.

Valores perenes e universais, forjados no passado, estabeleceriam um freio ao desenvolvimento se transformados em ditadura sobre a ação humana e científica. House, que esculacha com esse pressuposto em sua atividade profissional, oferece uma alternativa, às vezes esboçada no final de cada episódio. A moral deve estar subjugada aos objetivos científicos, mas não é o mesmo que descartá-la. Trata-se de reconstruí-la, a cada momento, conforme os interesses concretos da humanidade e seus microcosmos.

E por aqui ficamos. Afinal de contas, House não é uma mesa-redonda sobre filosofia. Basta ser o que é: entretenimento inteligente, de alta qualidade, que faz pensar. Um raio no monótono céu azul do multiculturalismo e do politicamente correto, cujo cardápio de boas maneiras frequentemente anestesia o debate de questões fundamentais.


*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi


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