Lugar de fala e a fala do lugar

Eu não posso nunca esquecer que essa palavra que trago como meu ofício de mundo não pode ser menos que o fio afiado da lâmina, mas não qualquer lâmina

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Peguei o uber em Itaquera e o motorista me disse que era também do Pará, começamos a contar histórias. Foi que uma mulher cometeu um assassinato a terçadas em Marituba e quando o primo do motorista ficou sabendo achou que a mulher tinha dado com um terço na cabeça do próprio marido, um desses violentos, até matá-lo.  Aí começamos a rir, eu e o motorista, não da mulher ou do marido, mas do primo do motorista que não sabia que assassinato a terçadas não é com terço e sim com terçado. Aí minha amiga paulista que estava também na viagem perguntou o que era um terçado, fui falar mas o motorista logo se enganchou na voz e saiu explicando que terçado é um facãozão desses que se usa pra abrir picada na mata. 


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Eu arrematei: casca de coco também. Pra poder tomar a água ali na praça Batista Campos. Aquela ferramenta que o vendedor usa pra abrir a casca é um terçado.

Nesse ponto, minha amiga já conseguiu visualizar a goela do marido feito uma ostra esgarçada em madrepérola e sangue. Foi assim que a cena se deu. O corpo caído na morte foi a ponte para o vermelho vivo tingir o vermelho terra do chão batido. A mulher tremeu entre o medo e o alívio. 

O nosso carro parou no sinal.

Vês como um terço não poderia fazer uma coisa dessas?

Um terço faz outras desgraças, corta outras gargantas, de outras maneiras. 

Porque de um terço pra um terçado tem uma diferença secular na estratégia de abate. 

Protássio Nenê/Reprodução

Eu não posso nunca esquecer que essa palavra que trago como meu ofício de mundo não pode ser menos que o fio afiado da lâmina, mas não qualquer lâmina

A Fera

Cruzeiro, por Paloma Franca Amorim

Videoclipe, por Paloma Franca Amorim

 

Um terço traz a palavra como açoite, a inversão dos termos da civilidade e da reação desesperada de um corpo que é silenciado. Quando o corpo reage o terço o localiza como delirante, vítima de possessão, expressão selvagem de inteligência nenhuma. É assim que opera a tecnologia da conversão. Para o terço tudo nasce de inverso. Os agressores são vítimas e os agredidos são algozes. Bota-se um terço a balançar na altura dos olhos e ele é eficaz como um relógio desses de hipnotismo - de repente o preto passa a acreditar que é branco e o amarelo, roxo.

Mas o terçado, minha filha, disse o motorista, esse sim faz milagres.  

Faz mesmo. Eu disse.

Concordei porque outro dia eu estava aqui na cidade de Black River me sentindo muito triste, e até assustada. Assustada mesmo, apesar de não ser mais criança. Porque o susto também se atraca no corpo adulto mas a gente aprende a fingir que não tá fodido. Eu já funciono de outra forma, quando sinto que tô fodida, digo logo:  eu tô fodida. Aí parece que o corpo entra em comunhão com o estado de espírito e aceita melhor a condição de estar fodido para daí então andar pra frente.

Tá legal, tô fodida, e agora o que eu faço?

Aí pronto, o sol volta a brilhar, a esperança viceja, os calos doem menos. É como se acalmar por dentro e por fora para achar uma saída ou esperar com alguma paz a equipe da Tailândia te regatar de dentro da caverna.

O motorista ficou encafifado: do que exatamente a senhora está falando?

Tô falando ainda da morte a terçadas, senhor. Tô pensando aqui sobre a Tuíra. O senhor lembra dela?

Tuíra não é aquela coceira que dá na pele?

Pode ser também. Chama assim no norte, né? Pele tuíra. Uma coceira que dá na pele, mas eu tô falando de uma outra coceira que dá no coração, no estômago, nas tripas. Tô falando da índia Tuíra, kaiapó, com seu terçado na mão, em 1989, falando seu discurso contra a barragem hidrelétrica de Belo Monte-Kararao no rio Xingu. O terçado dela, sem tremer, passava pelo pescoço do presidente da Eletronorte, José Muniz Lopes, que atônito foi obrigado a ouvir tudo que ela dizia, em kayapó, ainda que não entendesse nada. E talvez se fosse em português mesmo assim ele não teria entendido.

A senhora sabe de História do Brasil, eu não sei direito...

Não, não. Mas eu tô falando de um negócio que é História do Brasil mas é outra coisa também, é essa Tuíra no coração. É do terçado da Tuíra que eu tô falando. Porque se o terço faz as coisas ficaram invertidas, o terçado desinverte e espalha a água da realidade no tapete. Eu tô falando é disso, mais do que de História. Tô falando que eu tinha que ter um pouco da coragem da Tuíra, mas sem ser a Tuíra. Porque eu tô fodida. Trazer a Tuíra no coração, no estômago, nas tripas.  A lâmina do terçado da Tuíra, o fio afiado da lâmina do terçado da Tuíra, a lâmina de sutileza profunda, estrela que não hesita porque humana, desesperadamente humana. É disso que eu tô falando, que eu não posso nunca esquecer que essa palavra que trago como meu ofício de mundo não pode ser menos que o fio afiado da lâmina, mas não qualquer lâmina.

Não, né?

Não. Tem que ser a lâmina do terçado da Tuíra.

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