Atalaia, algodão e acetona

O Maurinho uma vez eu vi dirigindo uma Ferrari no Atalaia. Juro pela minha mãe morta morta. Era uma Ferrari mesmo porque toda vermelha e com um cavalo de musculatura vicejante estampado no capô

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O Maurinho uma vez eu vi dirigindo uma Ferrari no Atalaia. Juro pela minha mãe morta morta. Era uma Ferrari mesmo porque toda vermelha e com um cavalo de musculatura vicejante estampado no capô.


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Um daqueles modelos sem tampa, igual os dos Road Movies norte americanos que a gente assistia no Intercine.

Quando eu vi o Maurinho chegando na Ferrari  cutuquei o Ícaro e já avisei que ele se desse o respeito e não ficasse babando tão escancaradamente, mas foi muito em cima da hora porque uma Ferrari corre com rendimento e vrá, o Maurinho passou, o Ícaro babou, o Maurinho percebeu e saiu cantando pneu nas areias do Atalaia, todo sorridente como de costume, porque adorava essa coisa toda de ser o fodão por onde andava.

No colégio era a mesma coisa. Não sei que diabos que esse menino tinha que todo mundo fazia questão de dar a entender que era amigo dele, oi Maurinho isso, oi Maurinho aquilo, oi Maurinho e aí, caralho?

Ele jogava no time de basquete masculino e o treino deles era antes do nosso. Difícil ficar lá com as pernocas de fora nos shorts de malha e o Maurinho escolhendo qual de nós ia pro abate. Nunca eu, claro, porque tinha manchas nos joelhos, era meio gordinha, havia cortado o cabelo bem curto no final da oitava série, usava aparelho nos dentes e para completar: manca, apesar de bonita.  Graças a deus que nunca eu.

Uma vez o Maurinho disse que minhas unhas de esmalte descascado pareciam as unhas da empregada da casa dele. Uma onda de risos alheios se propagou no ar e eu escondi meu par de mãos debaixo da bunda na carteira e fiquei rezando pro horário da aula passar mais rápido para que eu pudesse realizar o plano de entrar pelo corredor da sala da dona Nicinha, torcendo para que lá ainda estivesse a escada do zelador, então eu ia subir pela fenda da parede com a escada, alcançar o telhadinho que dava para a rua, pular o muro, escapar da escola e conseguir passar na farmácia da esquina para roubar algodão e acetona.

Algodão e acetona podiam arrancar o esmalte das mãos marrons, mas não podiam arrancar o marrom das mãos que era o que, na verdade, fazia com que o Maurinho  que eu era parecida com a empregada da casa dele.

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Uma outra vez caímos no mesmo grupo para fazer um trabalho de biologia. Minha mãe propôs que reuníssemos em nossa casa pra economizar dinheiro de traslado, mas eu inventei uma história de que era melhor mesmo fazer do outro lado da cidade, na casa do Nelson, porque todo mundo morava pra lá mesmo. Eu tava era com vergonha da nossa casa, dividia o quarto com minha irmã mais velha. A gaveta de calcinhas, a gente só foi ter uma pra cada depois da adolescência. 

O apartamento onde a gente morava era do tamanho do closet da Rayana que eu conheci também numa dessas situações de trabalho de equipe.

Mas lá no Atalaia eu já estava mais velha, tava marcada de guerra, tinha passado para o front da resistência. Só fui lenta no cutucão do Ícaro, mas depois a gente achou graça do Éguaaaaaaa que ele soltou quando viu a Ferrari do Maurinho cortando a praia.

Minha mãe se espocou de rir da nossa cara de pedestre. 

ASCOM/CBMPA

Nunca entendi por que carro podia entrar na praia do Atalaia. Era esquisito demais, o pessoal transitando com o vidro fechado, ar-condicionado ligado, pra evitar areia no carpete. Não fazia sentido algum, praia é pra caminhar, tomar o solzão no topo, sentir o calor, entrar no mar. A gente também ia de carro, todo mundo ia.  

O Atalaia até hoje é um salão idílico de automóveis.

Esse dia da Ferrari do Maurinho se perdeu no ano de 1986.

No final da tarde, a gente tava indo embora, aconteceu uma gritaria. Eu e o Ícaro corremos pra olhar, a maré já tava cheia, cresceu rápido ao longo do dia. Tinha um povo em volta de um negócio grande, vermelho, no meio da água.

Era, isso mesmo, a Ferrari do Maurinho havia sido engolida pelo mar. As ondas pouco a pouco lambiam o carro inteiro, puxando a ferraria para o cavo do oceano, lá onde fica o cemitério dos carros condenados pela preamar.

Sei que quando olhei pro lado vi o Maurinho aos prantos porque o pai ia brigar feio com ele por ter ficado bêbado e deixado a Ferrari virar farelo. Sei que nessa hora senti que era o momento de ter empatia, silenciando em mim todo e qualquer desejo que o rapaz estivesse dentro do carro a se afogar, aplacando o julgamento revanchista sobre a situação. Soou aquele alarme ético para o qual eu havia sido preparada desde a tenra infância através de rigorosa educação socialista por entre livros de Lygia Bojunga e manifestações políticas em família contra o governo do estado. Eu tinha a noção de que deveria ter piedade do Maurinho, mas como sou escrota mesmo achei foi pouco o que ele passou.

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