O proibidão mexicano

Ritmo e rimas celebram o crime organizado

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A ode ao crime organizado tem ritmo tipicamente mexicano em Culiacán, uma das cidades mais violentas do México e lar dos mais notórios cartéis de drogas. Já no início da canção “Movimiento Alterado”, interpretada pelo coletivo de grupos musicais Los Sanguinarios del M1, a narrativa de violência se faz presente: “Com ‘chifres de bode’ / bazuca na nuca / voando cabeças / daqueles que atravessam / somos sanguinários / loucos bem drogados / gostamos de matar”. 

Os “narcocorridos”, como são chamados os “proibidões” mexicanos, se tornaram umas das mais importantes expressões da cultura do norte do México e entre as comunidades de imigrantes nos Estados Unidos. Derivados diretamente dos tradicionais corridos revolucionários – espécie de romance cantado, similar ao cordel brasileiro –, são canções populares que exaltam personagens importantes da região e traficantes e seus atos fora da lei, além do ofício do narcotráfico. 

As letras celebram as matanças, fugitivos e pistoleiros, elogiam os valores do machismo, da força e da falta de medo frente às autoridades. A música é acompanhada, em muitos casos, pelo ruído de armas como a AK-47, ou como é chamada na região, “chifre de bode”, fuzil preferido dos criminosos. 

“Por meio dos narcocorridos, os buchones (sinônimo de traficantes no México) se tornam heróis. Por isso, eles contratam os músicos para que escrevam corridos sobre si próprios. Chegam a pagar milhares de dólares por uma boa canção, que os levará a serem lembrados e admirados”, explica Jaime, líder da banda Sangre Sinaloense. 

Jaime e os outros 13 elementos do grupo costumam entreter casamentos. Em Culiacán, o Opera Mundi assistiu a uma dessas apresentações. Vestindo camisas escuras e calças negras, eles se posicionam em um pequeno balcão, acima do salão de festas. “Tocamos tudo o que pedem, em todos os eventos: casamentos, festas de 15 anos, bautismos etc. Em Culiacán, claro, a maioria dos clientes é formada por traficantes”, conta Jaime. 

Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi 
 
A Sangre Sinaloense canta durante festa de casamento em Culiacán, México

“Um cliente, que morava em Apatzingan, estado de Michoacán, me chamava para tocar em suas festas. Pagava o transporte, hospedagem, alimentação e um pagamento de 25mil dólares para que tocássemos por três ou quatro dias seguidos. Era um ótimo cliente, mas a polícia o prendeu. Foi condenado.” 

Todos os grandes chefes de famílias do narcotráfico têm seus corridos famosos nas ruas do norte do México. Em alguns casos, grupos musicais com renome nacional e que eventualmente tocam nos EUA, declaram abertamente a proximidade que têm com os cartéis, o que é o caso dos Abutres de Culiacán, El Komander, Bukanas e outros. 

Los Buitres de Culiacan e El Komander cantam na Califórnia: 
 

A popularidade do narcorrido em Culiacán é evidente. Lá, é possível contratar grupos nas esquinas da cidade, como acontece com os mariachi em outras zonas do país. A execução de uma canção custa 50 pesos e três, 120. “Mas não podemos tocar a do ‘Mochomo’. Nos dias de hoje, é capaz de o músico tomar um tiro se mencionar o nome dele nas ruas”, conta José, membro de uma das bandas de rua, em referência a Alfredo Beltran Leyva, “el Mochomo” (nome dado a um tipo de saúva). Antigo sócio de Joaquin "el Chapo" Guzmán, o narcotraficante mais poderoso do México, Beltran Leyva foi preso em janeiro de 2008, supostamente por uma traição de “El Chapo” e desde então os cartéis de Sinaloa e dos Beltran Leyvia vivem em guerra. 

O fato de alguns corridos serem proibidos em Culiacán mostra a importância das canções na propagandas dos cartéis. “Antes cantávamos os corridos que quiséssemos”, explica Jaime, durante uma pausa. “No entanto, atualmente, desde o início da guerra entre o cartel de Sinaloa e o dos Beltrán Leyva, é preciso ter muito cuidado. Preciso prestar atenção a quais cartéis que estão me contratando. Por exemplo, o corrido do ‘Mochomo’ era famoso. Agora, se alguém o toca em Culiacán, que é ‘praça’ de ‘El Chapo’, corre-se perigo”, conta. 

A vida dos músicos de narcocorridos transcorre no limite. Consegue-se muito dinheiro com as apresentações, graças às gorjetas dos “buchones”, mas o risco de morte é iminente. “Chegamos a tocar por 36 horas seguidas nas festas. Nesse meio tempo, vemos muitas coisas erradas, mas nos fazemos de desentendidos, surdos e cegos, porque tudo pode acontecer. A única preocupação deve ser a música”, diz Jaime. Segundo o músico, é comum ver cenas de pilhas de cocaína nas mesas, armas de alto calibre e prostitutas. “As mulheres assediam os músicos, mas se trata de uma festa de traficantes, portanto, é preciso esconder as mãos atrás das costas e não olhá-las no rosto. Se alguém não se comporta bem com uma mulher dos ‘narcos’, é comum acordar no dia seguinte com a barriga aberta.” 

Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi 
 

Músico interpreta narcocorridos nas ruas de Culiacán: menos a do "Mochomo"

De acordo com Jaime, também é comum os próprios músicos arranjarem prostitutas para os traficantes. “Por diversas vezes precisei levar garotas até os clientes, para que se divertissem”, conta. Outros criminosos, conforme conta Jaime, são mais excêntricos: “Um amigo de Michoacán me pediu uma vez 250 exemplares de AK-47. Disse que conseguiria, mas precisava de tempo. Em 15 dias os entreguei. Que alternativa eu tinha?”, questiona. 

Banalização 

O fenômeno dos narcocorridos vem sendo investigado há anos no México e muitos estudiosos o tratam como uma típica manifestação social. “Além de exaltar a figura dos traficantes, os narcocorridos medem a lealdade das pessoas a cada cartel. Não é algo simplesmente folclórico. Se trata, acima de tudo, da publicidade do modelo ‘narco’, algo que substituiu completamente valores sociais e que banaliza a luta contra a criminalidade”, explicou ao Opera Mundi Javier Valdés, editor da revista Río Doce de Culiacán. 

“O narcocorrido é o termômetro de uma representação cultural e política, na qual os atores com maior representatividade são os traficantes, e não as autoridades. Quando os jovens cantam os narcocorridos, estão o tomando como seu modelo, sua fonte de inspiração e é exatamente dessa forma que o estado perde legitimidade. É inútil enviar o exército para combater os traficantes e militarizar o país, porque a ‘narcocultura’se difundiu onde o Estado e as leis eram ausentes. A cultura da criminalidade não se combate com M16, mas sim com educação”, opinou Valdés. 

Em 2006, o então recém-empossado presidente Felipe Calderón decidiu militarizar o combate ao narcotráfico com a mobilização de 50 mil soldados do Exército, especialmente nos estados do norte, na fronteira com os EUA. Desde então, mais de 40 mil pessoas morreram em situações ligadas ao crime organizado.

 

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Publicado originalmente no site Opera Mundi e reproduzido no número 02 da revista Samuel

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Licença CreativeCommons: Atribuição CC BY

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