O cabaré revolucionário de Rita Antonopoulou

Cantora grega interpreta clássicos da trincheira

Esteja sempre bem informado
Receba todos os dias as principais notícias de Opera Mundi

Receba informações de Opera Mundi


Com canções de protesto gregas e internacionais, Rita lançou o álbum "Uma Cidade Para Dois", em 2001

Saiba o que mais foi publicado no Dossiê #03: Alternativas verdes

Leia as outras matérias da edição nº 3 da Revista Samuel

O teatro Gialino, na região central de Atenas, é uma casa noturna à moda antiga. Cerca de 400 pessoas se acomodam pelas mesas distribuidas diante do palco. Pedem bebidas, encomendam uns petiscos, alguns até se arriscam a jantar. Muitos fumam, cobrindo o auditório com uma névoa que recorda os bas-fonds dos espetáculos de outras épocas.

O recital em cartaz pega carona nesse ambiente. Intitulado Paris-Berlin, apresenta uma dupla de artistas inspirada no dueto entre Liza Minelli e Joel Gray, protagonistas do célebre filme Cabaret (1972). Trata-se de uma antologia musical do século XX, entrelaçada por textos ácidos contra o garrote apertado pelos governos francês e alemão sobre o pescoço da Grécia atual.

Claro que a narrativa é incompreensível para os que não dominam a língua. Mas o repertório fala para a memória e o coração dos ouvintes de todos os idiomas. No centro do espetáculo, uma jovem cantora empolga a audiência com interpretações emocionantes de clássicos da trincheira. Velhas músicas de guerra e protesto, gregas ou de outras partes, misturadas com canções de amor inventadas em épocas de combate.

A estrela da noite chama-se Rita Antonopoulou. Sua voz grave e potente é a antítese, por exemplo, do estilo sussurrado e pedante de Carla Bruni, a primeira-dama francesa. Enche o teatro de eletricidade ao cantar Lili Marlene, tornada famosa por outra Marlene, a Dietrich, e renascida nos lábios de Hanna Schigulla. Faz homens e mulheres lacrimejarem com a glamurosa Sous le ciel de Paris, da legendária Edith Piaf.

Apoie a imprensa independente e alternativa. Assine a Revista Samuel.

Tempero da agressividade

Rita canta em francês, inglês, grego e alemão durante quase três horas. Não somente empresta sua voz a canções antológicas, mas também arrisca novos arranjos. Depois de versão clássica paraAmsterdam, carregada com a densidade pensada por seu autor, Jacques Brel, mergulha em nova abordagem do mesmo compositor, dessa feita para Ne me quitte pas. Oferece à célebre cantiga um tempero de agressividade que pode até incomodar os que apreciam sua entonação original de dor e perda.

O espetáculo se encerra com tradicionais cantos locais, a maioria de protesto. Rita desce do palco para a plateia. Muitos acompanham, ao seu lado, conhecidas letras e melodias de Mikis Theodorakis, Thanos Mikroustsikos e outros ídolos da história musical do país no século XX. As pessoas parecem tomadas pela vontade de buscar, no passado, a trilha sonora que dê ânimo e poesia para as batalhas travadas pelos gregos de hoje, por sua sobrevivência perante a roda inclemente das finanças mundiais.

“Minha geração tinha a impressão de ter tudo”, diz a cantora, nascida em Atenas há 33 anos. “Quando a Grécia se incorporou a União Europeia e o país foi inundado por créditos abundantes, o consumo fácil criou ilusão de prosperidade entre os jovens. Agora acabou". Filha de um trabalhador na área de telecomunicações e de uma bancária, Rita ainda vive no Maroussi, bairro de classe média nos subúrbios de Atenas. Apesar de os pais terem simpatia pelo Pasok, partido da social-democracia, sua crítica à sociedade grega brotou apenas com a emergência da carreira musical.

“Eu era uma garota de 18 anos que gostava de rock, ouvia Bonny Tyler, Bon Jovi e muita música pop”, relata. “Queria fazer faculdade de arquitetura. Não era uma menina rica ou mimada, logo comecei a trabalhar para não ser um fardo para meus pais, mas fazia parte da juventude dourada dos anos noventa.”


Certo dia, nos idos de 1996, para comemorar o aniversário de um amigo, foi com seus colegas a um bar. Como sempre gostou de cantarolar, insistiram para que subisse ao palco e interpretasse algo em homenagem ao aniversariante. Escolheu uma canção folclórica. Depois outra e mais outra. No final da noite, ganhou um envelope da dona do estabelecimento. Era o pagamento por sua apresentação e um convite para que virasse profissional da casa.

Esquerda musical

Rita começou a cantar em bares e cafés. Através de um conhecido em comum, foi apresentada ao compositor Plessas Kraounakis, bastante conceituado por suas músicas para teatro e cinema, além de destacado personagem da intelectualidade de esquerda. Interpretando suas canções, ela foi conquistando reconhecimento de críticos e outros compositores. Não demorou para ter a oportunidade — e a coragem — de procurar Thanos Mikroutsikos, um dos grandes menestréis do cancioneiro popular grego e expoente da esquerda musical desde os anos sessenta.

Ex-militante maoísta e ministro da Cultura (1994-1996) no governo de Andreas Papandreu, Mikroutsikos logo fez daquela bonita loira de olhos verdes e timbre rouco sua principal intérprete. Rita ganhou repertório novo e viu as portas das gravadoras se abrirem. Além de três discos de relativo sucesso, passou a ser tocada em rádios e programas de televisão. Algumas de suas apresentações, disponíveis no You Tube, foram vistas por mais de meio milhão de navegadores. Quem quiser, pode procurá-las em sua página no Facebook.

A cantora também incorporou um bom e eclético pacote de músicas estrangeiras, nem todas cantadas no recital Paris-Berlin. Nesse seu portfólio, há uma belíssima interpretação de Canção do Mar, fado escrito por Frederico de Brito e Ferrer Trindade, para ser imortalizado por Dulces Pontes e Amália Rodrigues. Também constam composições de Astor Piazolla (Los pájaros perdidos) e um clássico spiritual norte-americano, Sometimes I feel like a motherless child. Pode-se igualmente ouvi-la cantar, com uma suavidade quase bossa-nova, a brasileiríssima Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá.

“Quando eu estava na escola, chegava em casa e minha avó só me acompanhava no jantar depois de assistir mais um capítulo de Mulheres de Areia”,  conta sorrindo. “Não tive muito contato com a cultura brasileira, mas foi escutando essa novela, sem ler as legendas, que me dei conta de uma certa facilidade para aprender idiomas e reproduzir seus sons, mesmo quando não entendo o conteúdo”. Esse talento, ajudado pelas gêmeas do bem e do mal representadas por Glória Pires, deu-lhe a peculiar característica de cantar em várias línguas sem passar pelo constrangimento de sotaques ruidosos.

Outros estilos

Nesses 15 anos de carreira, Rita acabou por construir uma identidade fortemente vinculada à música de protesto, ainda que sua voz embale cantos de outros estilos. Até há poucos anos, esse caminho era asfaltado com dificuldade. “Durante muito tempo tive a impressão que as pessoas gostavam de minha performance, mas me olhavam como se eu fosse alguém de outro tempo”, relembra. “Mas a crise econômica, seguida de manifestações e greves, está fazendo o protesto voltar a ser pop.”

Apesar do crescente sucesso, em parte devido ao novo clima político no país, seu sentimento é de inconformidade, contrariando a ideia generalizada de que o país está em ebulição. “Os jovens ainda não entenderam o que se passa”, reclama. “A maioria fica em casa, meio desanimada, não assume compromisso de lutar contra o corte dos direitos sociais e a destruição da soberania grega.”

A insatisfação com sua geração impulsiona uma ávida militância musical. Rita canta onde lhe convidam: atos públicos, exibições para arrecadar fundos sindicais, demonstrações de solidariedade. “A música não é apenas uma das formas de registrar a história”, pontifica com a mesma contundência suave com que canta. “Também pelas canções as pessoas descobrem o mundo em que vivem e quando é hora de fazer alguma coisa para mudá-lo.”

* Texto publicado originalmente no portal Opera Mundi

Deposição de Fernando Lugo foi golpe contra o Brasil

 
Licença CreativeCommons: Atribuição CC BY

Outras Notícias

Receba informações de Opera Mundi

Destaques

Publicidade

Escravidão e Liberdade

Escravidão e Liberdade

A editora Alameda traz uma seleção especial de livros escravidão, abolição do trabalho escravo e sobre cultura negra. Conheça o trabalho de pesquisadores que se dedicaram profundamente a esses temas, centrais para o debate da questão racial e da história do Brasil. 

Leia Mais

A revista virtual
desnorteada

O melhor da imprensa independente

Mais Lidas

Últimas notícias