Elas jogam sozinhas

O cotidiano humilde das mulheres de Urundayti, no chaco boliviano

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A praça de Urundayti é o campo de futebol, e agora está vazia. É quinta-feira e a essa hora, bem de manhãzinha, os homens trabalham nas suas roças, as mulheres preparam a comida. A comunidade guarani fica a 12 quilômetros de Camiri e não aparece sequer nos atlas da Bolívia. Camiri, sim: Camiri é um ponto considerável no mapa. Um ponto com história, com passado no petróleo. Quando o primeiro poço de extração foi instalado, nos anos 1920, os locais o chamaram de “a vaca do úbere preto”. E assim Camiri converteu-se no que é hoje: uma cidade sóbria, mas elegante, uma urbe bem pintada e bem estruturada, com moradias de telhado de barro e vans de último tipo.
 


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Urundayti está a 6 quilômetros do rio Parapetí e não tem água potável. Seu solo é seco e, segundo o mapa, o lugar não existe. Talvez por isso as casas tenham sido erguidas aqui sem nenhuma ordem, como se algum estranho tivesse lançado um punhado de sementes ao acaso para que crescessem. Não existe e, talvez por isso, a praça, o campo de futebol, está vazia.

Está vazia e, no entanto, é fácil imaginá-la lotada. Sobretudo porque antes de eu chegar à comunidade a haviam descrito como cheia de mulheres. A descrição feita era de um lugar cheio de senhoras atrás de uma bola, cheio de mães amamentando seus bebês durante os escassos tempos mortos das partidas, e depois voltando suarentas ao campo; cheio de jovenzinhas grávidas que haviam sido obrigadas a se retirar do campo de jogo e por isso ficavam no banco.


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Essas mulheres que cozinham em panelas enegrecidas foram carinhosamente batizadas pelo jornalista Daniel Burgui como “as Beckhams de Urundayti” e hoje estão cansadas. Algumas delas disputaram na Espanha a Donosti Cup e querem esquecer o futebol por um tempo. Elas ganharam o primeiro jogo por 6 x 0. Perderam outro por 12 x 0. E comemoraram ambos os resultados como se tivessem conquistado o campeonato, com cantos e vivas.

“Porque para nós não se trata de ganhar ou perder. Jogamos para unir laços. O único requisito para ser parte do grupo é ser mãe: tanto faz se de um ou sete filhos. Os gols marcados são de esperança e vida melhor. Quando uma equipe ganha, ganhamos todas. Queremos vencer a pobreza, a discriminação”, diz Margoth Segovia.

A população guarani na Bolívia, composta de acordo com o último Censo (2001) por 81 mil pessoas maiores de 15 anos, resistiu com sucesso à colonização espanhola e só foi subjugada na batalha de Kuruyuki, que teve lugar em 1892, durante a era republicana. Desde então, os abusos — primeiro dos espanhóis, e depois dos proprietários de terras — têm impedido uma verdadeira emancipação.

Margoth, diretora do Monim (Movimento de Mulheres Indígenas do Mundo) e organizadora das partidas nos diversos assentamentos guaranis, está ao meu lado agora, enquanto esperamos por Jesús Sánchez, o substituto do gran capitán, para que ela me apresente a ele. Nos povoados guaranis da Bolívia, o gran capitán é aquele que vela pelos interesses da sua gente, que dirime os conflitos. Antes, segundo Margoth, os maridos não deixavam que suas esposas praticassem o futebol. “Agora, por outro lado, cuidam das crianças, ficam na torcida”. E buscam o melhor lugar à sombra para não perder um certeiro chute a gol ou o salto da goleira para espalmar a bola no último segundo. Com seus chutes, sugere Margoth, elas “estão impulsionando uma revolução”. Graças ao futebol, estão conquistando novos espaços; acabar com o machismo já não parece só um sonho.

Povoado de mulheres

Depois de serem subjugados pelos espanhóis, os guaranis perderam grandes extensões de terra, e muitas famílias e comunidades foram obrigadas a se empregar durante mais de 12 horas por dia nos latifúndios do Chaco boliviano — um extenso território de 130 mil quilômetros quadrados que compreende parte dos departamentos de Chuquisaca, Santa Cruz e Tarija —, muitas vezes apenas em troca de comida e roupa.

Ainda hoje, há guaranis que vivem em condições de semiescravidão em algumas das grandes fazendas da região: trabalham sem nenhum tipo de compensação salarial, estão atados a dívidas que se transmitem de geração em geração — pelo consumo de produtos básicos, como arroz ou açúcar, que os patrões há décadas vendem a preços exorbitantes para as famílias guaranis.

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Tudo isso acontece ainda a poucos quilômetros de Urundayti, mas não em Urundayti, que nasceu como uma comunidade livre com apenas um par de construções precárias, depois da reforma agrária de 1952.

“Já estávamos aqui no Chaco antes da fundação de Camiri. Mas depois nos expulsaram. E na reforma de 1952 nos deram terras ruins”, afirma Jesús Sánchez, o capitão interino, enquanto nos dirigimos a passos lentos até o colégio. Enquanto continuamos caminhando, Urundayti parece definitivamente um povoado de mulheres solteiras: mulheres lavando mandioca; mulheres se penteando; mulheres tirando manchas da roupa; mulheres tomando mate; mulheres cuidando de crianças.

Família nas costas

Marlene Sánchez, de 25 anos, e Miriam Delgado, de 20, são irmãs. Têm dois filhos cada uma. Miriam foi zagueira na Donosti Cup e diz que seu companheiro também bate uma bola. Mas não agora. Agora, a praça, o campo de futebol, continua vazia, e Marlene e Miriam amassam farinha para deixar uma provisão de pão para pelo menos uma semana. Não precisavam me dizer, mas me dizem: aqui falta tudo, não há água, nem leite nem verduras. O que há são bodes de barbas esticadas, porcos que passeiam à vontade, como se a comunidade inteira fosse o seu chiqueiro, galos, cachorros magérrimos. E são poucos os homens que param nas suas casas.

“Os homens vão embora”, diz Marlene. Alguns vão trabalhar na safra nos departamentos de Santa Cruz e Tarija durante alguns meses, para ganhar alguns pesos a mais. E outros se dirigem às suas roças desde cedo, para produzir feijão, para produzir milho, para produzir abóbora, amendoim ou melancia. “Mas às vezes a roça não rende, e tem homens que vão embora e já não voltam”, acrescenta Marlene. E quando isso ocorre, elas carregam toda a família nas costas.

Marlene é morena, de olhos grandes. Tem as mãos grudentas de farinha, e é a que mais fala. Marlene diz que trabalhou antes como empregada doméstica em Camiri, “empatronada”, e que não aguentava. Que ali a maltratavam. Que gritavam com ela. Que o trabalho era de segunda a domingo, sem um só descanso para nada. Que a chamavam de “índia”.

Miriam é tímida, só de vez em quando troca alguma palavra em guarani com sua irmã, e tece bolsas com desenhos retangulares que costuma vender a diferentes preços por intermédio do movimento dirigido por Margoth Segovia. Na sua choça, de tabique — uma estrutura feita de paus e recheada de barro —, há dois catres para seis pessoas. Agora, como quase sempre, ela está às escuras, mas um televisor relampeja lá dentro, porque os filhos de Miriam e duas das suas sobrinhas veem um programa infantil em cima da cama. “Nós à noite assistimos à novela”, ri Marlene.

Comunidades liberadas

De acordo com a história oficial, os primeiros colonizadores de Camiri foram os Polis, os Rossis e os Vanuccis, imigrantes italianos que se dedicaram à agropecuária.

“Nossos avós deram duro nas plantações dos Vanuccis”, diz Jesús. “Minha finada avó me contava que todos lá tinham de se ocupar com algo: as crianças menores debulhavam milho para os animais; os maiores davam água aos porcos; os adolescentes e adultos faziam a semeadura; os anciões serviam como estafetas para pequenas tarefas; e as mulheres mais velhas fiavam os ponchos.”

Jesús diz também que os patrões aprendiam guarani, mas não lhes ensinavam o castelhano; que não lhes pagavam; que mal lhes entregavam charque, açúcar e roupa de vez em quando; que o capataz, se desobedeciam, lhes dava chicotadas.

Segundo Jesús, as comunidades guaranis que ainda estão sob o domínio dos fazendeiros, dos patrões – situadas na sua maior parte no departamento de Chuquisaca —, foram batizadas como “cativas”. Ali nasceram muitos dos que hoje formam parte das novas comunidades, as “liberadas”.

No meu segundo dia no Chaco guarani, a rotina se repete: as avós só falam na sua língua estranha, as caçarolas soltam fumaça, os animais de curral mordiscam o pouco que encontram pelos cantos, e as mulheres se juntam para tomar mate doce. O mate é uma boa erva para passar o tempo. E em Urundayti o tempo não avança como um relógio, e sim mais lento. Hipólito Cerezo é um dos poucos homens que estão por aqui hoje, e não toma mate — masca folha de coca.

Hipólito não é guarani. Está aqui porque sua mulher o é, e pode-se dizer que viveu duas vidas completas em seus 20 anos de existência: foi contrabandista de tabaco, sabe bem o que é trabalhar numa lavoura, foi motorista de ônibus, conhece de memória as distâncias até as fronteiras e sobreviveu — “com um pouco de sorte”, diz — a três acidentes rodoviários.

Frente a Hipólito está Plácida Sánchez, a parteira, junto a um tear comunitário. Segura entre as mãos um tecido feito pela metade, preto e branco. Em Urundayti, as tonalidades falam: o verde significa natureza; o vermelho, sangue derramado; o amarelo, riqueza.

“É só paciência”, comenta Hipólito. Ela levará três semanas para terminar o pano. Não muito longe de onde Plácida tece, num canto dos 400 hectares que hoje compõem a comunidade, há um pequeno cemitério que passa despercebido.

Outras épocas

Antes de partir para outra comunidade, duas mulheres de uns 40 anos me convidam para jantar na casa de Cruz Julián, que acaba de chegar de Camiri. Cruz, 49 anos, cabeleira vasta, costas fornidas, é um dos poucos evangélicos pentecostais que há em Urundayti, de maioria católica. Ele é dono de um carro caindo aos pedaços, o único que vi nos arredores do campo de futebol, e tem uma casa bem montada, robusta, com teto de telhas. Ele foi o primeiro — orgulha-se — a trazer a luz para o povoado.

“Naquele dia”, recorda-se, todos ficaram olhando a conexão elétrica, como se eu tivesse feito algum tipo de bruxaria. Não acreditavam. Antes era no lampião.

“Antes ninguém queria ser guarani, porque nos maltratavam”, diz Cruz, que se criou junto a um patrão que lhe surrava. Antes, repete, “para nós não havia justiça. Eu nunca fui ao colégio. Mas por conta própria aprendia a somar e a multiplicar. Não sei fazer as letras. Mas a mim ninguém engana.”

Numa das salas da escolinha de Urundayti, há uma lousa enorme, em que ficaram plasmadas outras épocas. A lousa está desgastada nas bordas e tem formas, como se fosse um mapa. Nela há rastros quase imperceptíveis de somas e subtrações que não puderam ser apagadas. É um quadro negro que ficou marcado como um novilho, também com essas letras que para Cruz são “símbolos esquisitos”, que nunca lhe ensinaram. 

Tradução por Rodrigo Leite

* Texto publicado originalmente na revista digital argentina Anfibia


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