Conheça a ibogaína, planta africana que é nova aliada de quem quer se livrar do vício em drogas

Com efeitos similares aos da ayahuasca, substância chega a ter 80% de eficácia no tratamento do vício em drogas como heroína e crack; brasileiras realizam expedição à África Central em busca da planta e disponibilizam tratamento no país

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Reprodução / Facebook Expedição Cura

Pele da raiz da ibogaína, onde fica concentrado seu teor medicinal

Em 1962, um molecote norte-americano do Bronx descobriu acidentalmente os efeitos de uma misteriosa planta africana. Viciado em heroína, Howard Lotsof tinha apenas 19 anos. Depois de ingerir a tal planta e passar por uma longa viagem psicodélica de sete horas, ele notou que sua vontade de chafurdar nas drogas havia sumido consideravelmente. Irresponsável ou não, o sujeito não pensou duas vezes e administrou doses similares para os seus amigos também viciados. Mais uma vez, funcionou.

De lá pra cá, especialistas do mundo todo têm feito o mesmo. Estudos recentes demonstram a eficácia no uso da "Tabernanthe iboga", mais conhecida como ibogaína, para o tratamento do vício em drogas como heroína, crack, cocaína, maconha e até mesmo depressão, além de T.O.C. e outros vícios, como jogos de azar.

No Brasil, pesquisadores da Unifesp testaram a planta em 75 pacientes: no fim do processo – que levou um ano –, 72% estavam longe dos entorpecentes. Considerando os tratamentos convencionais, estamos falando de algo extremamente relevante.

No episódio sete da série VICE na HBO, mostramos um viciado ingerindo doses de ibogaína no México. Também já falamos da tentativa de introdução da ibogaína no Afeganistão. Os efeitos colaterais são bizarros: visões, alucinações, vômitos, mal-estar. Geralmente, quem se submete ao tratamento relaciona a experiência a se "nascer de novo".

Há mais ou menos três anos, zapeando pelos canais da TV a cabo, a terapeuta brasileira Sonia Mazetto se deparou com um programa que falava sobre a ibogaína. "Pesquisando a respeito, percebi que fora do Brasil já tinha um movimento muito grande falando sobre o assunto. Mas os valores do tratamento por aqui eram exorbitantes."

Depois de colher todo tipo de informação possível, Sonia uniu forças com a filha, a tradutora Tabata Mazetto, e a assessora de imprensa Thiara Mattavelli. Juntas, as três deram vida à Expedição Cura e se mandaram para a África Central. Mais especificamente, Douala, a maior cidade de Camarões.

Mas a ibogaína não está para o continente africano como os matos de calçada estão para a cidade de São Paulo. "As pessoas pensam que é só chegar na África, que tem ibogaína. Ninguém conhece a ibogaína lá", relata a pesquisadora.

Sonia contou com a ajuda de pessoas locais para chegar até a planta. E o processo não foi fácil. Quem realmente manja sobre o assunto no continente africano é a tribo Buiti, que tem a planta como um elemento sagrado. Lá, Sonia se aprofundou no assunto, participando de rituais, cerimônias, congressos e, claro, ingerindo a planta. "Eu quis ir até a África para garantir que a ibogaína fosse uma planta confiável."

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Reprodução / Facebook Expedição Cura

Integrantes da tribo Buiti, em Camarões, com Tabata e Sonia Mazetto e pés da planta

Aqui no Brasil, o número de clínicas que utilizam a planta como recurso terapêutico só cresce. A Expedição Cura, juntamente com uma clínica de Cuiabá, cidade do Mato Grosso, não submete o paciente a rituais religiosos. O tratamento custa R$ 7 mil. São trinta dias de acompanhamento médico e psicológico. O primeiro passo é a desintoxicação, que leva dez dias. Em seguida, a dose da iboga é ministrada de maneira progressiva. O efeitos colaterais são muitos. Inclusive, há quem compare com as alucinações da Ayahuasca. Sonia explica que a pessoa precisa ser monitorada até 32 horas depois da dose. "As reações variam. Em algumas pessoas, elas são mais leves. Em outras, são mais intensas. Mas, geralmente, elas ficam desassossegadas, inquietas. A experiência que temos é que a pessoa leva uns dois, três dias pra retomar suas forças, sua energia e voltar ao normal", relata a terapeuta.

Antes de tentar o tratamento com a ibogaína, há seis anos, Felipe Cruz conta que se internou cerca de vinte vezes para tentar se livrar do vício em crack. Na primeira vez, teve muitas visões. Ficou surpreso quando memórias da infância subitamente retornaram, como uma geladeira que existia na casa de sua avó. Mas o que mais o assustou foi outra coisa. "Me vi embaixo da terra, num caixão. Eu estava morto e minha mãe estava ao meu lado. Foi bem chocante. Fiquei um pouco assustado", relembra.

A cada ano e meio, Felipe recorre ao seu médico de confiança, que ministra uma dose de iboga para mantê-lo livre do vício. A mudança drástica de vida resultou em uma tatuagem. "Fiz por uma questão de gratidão. Só consegui realmente ter uma vida depois da ibogaína. Hoje, eu estudo e sou vice-diretor de uma comunidade terapêutica para adolescentes no Paraná. Minha vida mudou bastante. Eu andava na rua, descalço, sob efeito de crack. Hoje, tenho um carro, tenho uma profissão, tenho respeito. Eu devo muito à ibogaína. Foi o que deu certo pra mim", enfatiza.

Sonia explica que não existe nada que faça a planta ser ilegal no Brasil. A Anvisa confirma, alegando que a ibogaína "não consta no rol de substâncias de uso controlado ou proscrito (proibido) no país". A Expedição Cura alega fazer tudo dentro dos conformes. "Não trazemos a planta viva, e sim as cascas da raiz que já vêm secas. Entramos com tudo documentado."

Na África, os locais diziam à Sonia que a ibogaína trata o corpo, a mente e o espírito. Parece mesmo milagrosa, mas a ideia não é vender o tratamento dessa maneira. A pesquisadora explica que a ibogaína serve para dar suporte ao organismo e criar condições para o cérebro dizer "não" quando a síndrome da abstinência aparecer.

O tratamento somente com a planta não basta. O acompanhamento psicológico é necessário. "O índice é esse: mundialmente, em todos os lugares aonde fomos, fala-se em 80% [de cura]. Já tive, sim, pacientes que recaíram. Procuro saber qual foi o motivo. O que aconteceu. Às vezes, precisamos refazer a dose, porque cada organismo é um organismo. Mas existem pessoas que, na primeira dose, num primeiro tratamento, já têm uma reação e uma resposta neural fantástica. E aí, como eles dizem, é retomar a vida", suspira.

 

Matéria original publicada no site da Vice Brasil.


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