Impeachment pra quem?

Na hipótese de o impeachment ser vitorioso, a chance de o Brasil voltar atrás nas conquistas sociais dos últimos 12 anos é imensa; será um “choque de gestão”, expressão bem ao gosto daquele tipo de gente que não gosta de pagar imposto

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A oposição lançou oficialmente o movimento pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na foto, parlamentares conhecidíssimos de seus... familiares. Nesse momento de suprema glória, eles são elevados à condição de redentores da nação merecendo toda a atenção da mídia. Nada mais falso.

Agência Brasil/ Rodrigues Pozzebom

Líderes da oposição com o presidente do Senado, Renan Calheiros

 Do ponto de vista do jogo político, é legítimo esse tipo de ação, em boa medida provocada pelos sucessivos ziguezagues do governo na política, na economia e na comunicação. Mas, do ponto de vista dos interesses reais da nação, o movimento é uma tentativa de “golpe branco”, como afirmou o cientista político André Singer. Aproveitando uma onda de descontentamento com a política, amplos setores sociais exigem, com razão, um novo modelo de governança. Ocorre que, por trás da bandeira do impeachment, existem lideranças da velha política, pouco interessadas em qualquer mudança, a não ser aquelas que atendam aos seus interesses imediatos de poder. Esse tipo de político faz um discurso fácil, moralista, que arrasta parcelas das classes médias urbanas e ressuscita fantasmas que julgávamos extintos no processo civilizatório da ainda incipiente democracia brasileira. Na prática, o movimento que pede o afastamento de Dilma quer ir mais além; quer prender Lula, acabar com o PT e exterminar qualquer opção de esquerda no país, numa atitude antidemocrática, retrógrada e perigosa. E o que é pior: disseminadora de ódio e da baixa cultura política.

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Na hipótese da tese do impeachment ser vitoriosa, a chance do Brasil voltar atrás nas conquistas sociais alcançadas nos últimos 12 anos é imensa. Primeiro porque um novo governante terá que dar satisfação ao mercado com medidas duras de enxugamento da máquina pública, tornando perfumaria o que Dilma anunciou ou fez até agora. Será um “choque de gestão”, expressão bem ao gosto daquele tipo de gente que não gosta de pagar imposto porque diz não ter nada em troca, mas não perde a chance de exigir um Estado cada vez menor.

Isto não será outra coisa senão a eliminação gradativa de programas sociais que inseriram milhões de brasileiros no mercado e na sociedade na última década e que tiraram o Brasil do mapa da fome mundial. Bolsa-família, FIES, Minha Casa Minha Vida e outros tantos programas terão seus orçamentos reduzidos ou eliminados para satisfazer, em primeiro lugar, ao deus-mercado e, depois, à demanda moral daqueles que se sentem “trabalhadores de verdade” contra os que vivem das “esmolas do governo”.

E quem são essas pessoas, consideradas de segunda categoria como bem mostra o filme “Que horas ela volta?”? Claro que são todas aquelas que não se encaixam no modelito da raça branca, urbana, moralista e preconceituosa. Os beneficiários dos programas sociais são, em sua grande maioria, negros, pardos, pobres, moradores das periferias e potenciais apoiadores dos “comunistas”, que também instalaram no país o “maior esquema de corrupção da história”. Feita a sopa de preconceitos, a nação poderá acordar no dia seguinte ao impeachment muito pior do que dormiu porque terá início, então, a restauração da política “por cima”, o que tem sido a tradição da história brasileira em momentos de crise. E o que dirão os “pedintes”? Aplaudirão o tiro no próprio pé ou se sentirão órfãos? Buscarão recuperar o que perderam?

A política “por cima”, a famosa “via prussiana”, vai condecorar heróis de barro, não mexerá nenhuma palha pelas classes populares e ainda adotará as velhas receitas liberais sob a tese de que “assim não dá e não pode continuar”. A crise política é ruim porque contamina a economia. Mas, uma crise social é totalmente imprevisível e não garante estabilidade nenhuma. É de se perguntar, portanto, a quem interessa realmente o impeachment de Dilma?

*Marco Piva é jornalista


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