Antonio Paneque Brizuela*

As práticas de circuncisão e ablação, originárias de culturas milenares e aplicadas ainda em comunidades africanas, asiáticas, árabes e em particular islâmicas, põem em perigo mortal a vastos setores da infância no planeta.

Ambas fundadas na mutilação de órgãos genitais, o número de mortos e as graves sequelas por sua aplicação causam a morte de milhares de adolescentes nos países subdesenvolvidos, em muitos casos sob alegações higiênicas ou científicas.

A circuncisão em meninos adolescentes e a ablação em meninas têm origem em práticas de diferentes tipos que datam de séculos e se fundam tanto no bíblico ou religioso como no social, ainda que a atualidade impõe novos rumos.

Para amplos setores africanos, por exemplo, essa tradição implica uma mudança de etapa imprescindível para “entrar” na condição de homem adulto e provar-se diante dos novos desafios derivados dessa condição dentro de uma aldeia, etnia ou clã.

Porém, mesmo que esta última prática registra uma alta taxa de mortalidade, a aparição de novas teorias, em particular sua presumível utilidade para prevenir a AIDS,  a ablação é a que desperta os mais urgentes apelos à humanidade.

A aplicação dessa espécie de macabro ato cirúrgico, na maioria dos casos com meios mais rudimentares, carece de sustentação científica ou racional e submete as meninas a um virtual ato de crueldade que as priva de uma normal sexualidade depois.

A ONU declara a ablação como violação

 

A organização mundial, representada pelo Fundo para a Infância (Unicef), pediu, talvez por primeira vez de modo radical, a eliminação dessa prática que afeta a 125 milhões de meninas e mulheres em 29 países da África e Oriente Médio.

Segundo um informe divulgado em Washington por essa agência, há nessas duas regiões 30 milhões de meninas em risco de ser submetidas a esse procedimento.

O documento da ONU atesta o crescente rechaço em geral das mulheres por essa forma de mutilação nos países em que o procedimento tem caráter universal.

A pesquisa que fundamenta esse informe revelou que nove de cada dez mulheres sofreram ablação na Somália, Guiné, Djibuti e Egito, enquanto que o problema continua sem alterações no Chade, Gâmbia, Mali, Senegal, Sudão e Iêmen.

A Unicef recomendou ações concretas para modificar atitudes e conformidades diante desse costume, assim como promover sua exclusão de forma paralela a melhora das condições e oportunidade para as meninas e mulheres. O organismo mundial considera dentro do conceito de ablação todos os procedimentos que de forma intencional ou por motivos não médicos alteram ou lesionam os órgãos genitais femininos e não trazem benefício algum à saúde das adolescentes.

África do Sul, sinal novo contra a circuncisão

A morte em anos recentes de centenas de jovens sul-africanos  por feridas originada pela circuncisão, muitos deles nos últimos meses, disparou novo alarme diante dessa prática secular tanto em Pretória como em outras regiões.

Se bem que a situação persista em países de diversas latitudes, o clímax de rechaço parece que foi precipitado pela morte de 30 jovens e graves sequelas para outros 300. Isso foi em junho e em maio morreram outros 34.

O número de sul-africanos mortos por circuncisão aumentou ultimamente apesar dos esforços do governo por evitar, mas agora a exagerada quantidade de vítimas em tão pouco tempo e só na província de Cabo Oriental, precipita unânime reação.

“Alguns dos jovens hospitalizados têm feridas muito graves, e vários foram vítimas de tentativas de castração, algo que nada tem a ver com a circuncisão”, declarou o porta-voz do Departamento de Sanidade de Cabo, Sizwe Kupelo.

Outros casos revelam uma intenção mais criminosa ainda. Os meninos ficam muito dilacerados e, só quando é possível, os médicos podem reconstruir seus órgãos genitais com a pela de outras partes de seu próprio corpo, acrescentou Kupelo.

A circuncisão e as escolas para vir a ser homem

 

Esses rituais de iniciação, habituais nas tribos xhosa, sotho e ndebele sul-africanas, registra graves danos na juventude local, apesar dos esforços oficiais para ensinar regras de higiene aos curandeiros tradicionais.

Entre as organizações locais que se opõem a esses costumes figura o Congresso Nacional Africano, partido no governo, que qualificou de “desastre” e pediu cadastrar os curandeiros para melhor controla-los.

Essa prática, no geral, afeta jovens entre 15 e 21 anos e também é perseguida pela política e tem o apoio e o estímulo das chamadas “escolas de iniciação”.

“A proliferação desses centros pode ser vista a cada dia em Cabo Oriental. Os mafiosos se aproveitam e destroem os jovens”. É algo criminoso que nada tem que ver com a cultura, assegurou o ministro de Sanidade, Aaron Motsoaledi.

Depois de circuncisados, os meninos devem permanecer na intempérie e sem qualquer atenção medida durante várias semanas em zonas isoladas, muitas vezes selváticas ou desérticas.

“A perda de várias vidas jovens em Mpumalanga e em outras partes do país é lamentável. Alguns pais não denunciam o desaparecimento por temor a opor-se à tradição”,  declarou o ministro da Presidência, Collins Chabane.

Países e regiões mais afetadas

Os motivos mais frequentes para circuncisar são religiosos, culturais ou médicos, afirma a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo estimativas desse organismo, em 2006, 30 por cento dos homens de todo o planeta estava circuncisado. 68 por cento deles são muçulmanos. Ainda que esse costume não seja mencionado pelo Corão, a circuncisão é praticada em todo o mundo islâmico.

Na África, os países que mais praticam essa mutilação são Quênia (84%), Tanzânia (70%), Moçambique (60%), Lesoto (48%), África do Sul (35%), Uganda (25 %), Malavi (21% e Namíbia (21%).  Seguem em frequência Ruanda (15%), Zâmbia (13,1%), Botswana (11,2%), Zimbábue (10%), Suazilândia (8%).

Há governos e instituições, entre elas Onusida e a própria OMS, que defendem a tese de que a circuncisão, junto com outros elementos profiláticos como a camisinha, significam uma prevenção a mais contra a Aids.

A circuncisão se justifica por razões médicas para tratar a fimose e a parafimose e neste caso envolve dez indivíduos em cada mil, mas persiste a controversa sobre o emprego desse método em meninos, sem razões médicas que justifiquem. Diversas organizações de saúde polemizam sobre os benefícios e riscos associados com a operação, mas nenhuma delas recomenda como prática rotineira.

Antecedentes, Egito e o judaísmo

circuncisãoA circuncisão é mencionada por Heródoto já no século V a.c. no segundo livro de suas Histórias e atribui sua origem no Egito, o que parece confirmado em numerosas provas arqueológicas.

O mais antigo desses antecedentes é um desenho na tumba de Ankhamahor (entre dois mil 300 e dois mil 200 a.c.) com uma imagem sobre uma circuncisão realizada com uma pedra de sílex num homem de pé.

A prática mais antiga de circuncisão está no judaísmo, religião em que essa prática é obrigatória desde há quatro mil 500 anos, quando, segundo os textos bíblico, o patriarca Abraham foi circuncisado por ordem divina.

*Prensa Latina, de La Habana para Diálogos do Sul