A nova realidade do país impõe novas estratégias

Aram Aharonian*

super-bolivarA Venezuela assiste a consolidação de uma nova identidade política, o chavismo, que trata de definir a partir de seus consensos internos até suas diferenças com os adversários, e a construir uma nova descrição de país, a nova narrativa de identificação popular -superando definitivamente o de “pontofixismo”- e sinais de identidade própria.

As novas realidades impõem novas estratégias e táticas e também políticas que mantenham unido o corpo social, tendo em conta o fracasso sistemático da (falta de) política comunicacional. Há que repensar, a partir do chavismo, a forma de informação e comunicação.

O risco de desaparecimento físico (ou da ação política direta de Chávez) parece ser oportunidade para abordar a partir do chavismo o postergado debate para articular uma liderança mais coletiva na qual diversas figuras compartilhem o vozerio mediático. E para definir uma política informativa, tendo em conta que, entre outras ferramentas comunicacionais, seguramente chegue ao fim o programa “Alo Presidente”.

A nova etapa começou em 8 de dezembro, quando Hugo Chávez apresentou -segundo palavras do sociólogo Javier Biardeau- seu “testamento político”, e mudou a política comunicacional oficial e o manejo sobre a saúde do Presidente.

Porém, e a oposição? Até agora, a maioria dos meios de comunicação comerciais estiveram manejando com alto grau de irresponsabilidade e perversão a saúde de Chaves e a situação institucional do país.

Apesar de que a nova realidade do país imponha novas estratégias e táticas, novas linguagens e protagonistas, no futuro previsível os meios privados prolongarão seguramente suas políticas, suas posições, sua escolha de temas  de tratamento, comportando-se como atores políticos e atores com interesses financeiros. São corporações mediáticas, não lhes interessa a sociedade, a realidade e muito menos a verdade.

Os acontecimentos que se sucederam nos primeiros dias de janeiro parecem ter consolidado tanto o chavismo -por um lado- como a espiral de ódio e violência que se apoderou da oposição, sobretudo na maioria dos meios privados, que mantiveram, desde 2001, mensagens e códigos invariáveis que tentam suplantar aos partidos pelos próprios meios, em que estes assumam paulatinamente os poderes do Estado.

Como difusores dos pontos de vista de proprietários e anunciantes, é improvável que os meios privados modifiquem sua mensagem enquanto os grêmios patronais não mudem sua política, ou seja, seus interesses, que apontam ao controle total do Estado através de seus circuitos comunicacionais ou de políticos manejados por eles, assinala Luis Britto García.

Como os meios privados informarão as propostas institucionalistas surgidas em alguns dos principais porta-vozes da oposição? Vão invisibilizar-los?

O reordenamento político

Na Venezuela se está produzindo uma reordenação do campo político em torno da figura do presidente Hugo Chávez, superando a conexão direta e a identificação quase religiosa entre o líder e boa parte do povo.

Muitos continuam apregoando sobre o caráter religioso da liderança de Chávez e o endeusamento por parte de seus seguidores, mas muito pouco se tem falado sobre esse estranho fenômeno psicológico de seus detratores que o converteram no próprio Mefistófeles, explicação “científica” para todas as calamidades do país e responsável por todos os vícios da nossa política, constata o opositor Leopoldo Puchi.

A grave enfermidade cria ansiedade e desequilíbrios no corpo social, mais ainda se se trata de uma liderança que removeu as águas do conflito social venezuelano e na qual se sentem representados amplos setores populares. A carga emocional, não pode ser ignorada e esta delicada situação política devia e deve ser manejada com suma responsabilidade e sensatez pelos círculos dirigentes.

Não obstante é perturbador que a Conferência Episcopal abrisse fogo falando de “uma interpretação acomodatícia da Constituição” e anunciando, como consequência, um cenário de violência. A igreja (do Vaticano) perdeu outra oportunidade de desempenhar um papel de mediação política, como sustentáculo das instituições.

Também houve pressa por parte da situação, falando de um critério de continuidade antes de que se pronunciasse o Tribunal Supremo de Justiça e, inclusive, semeando dívidas sobre a obrigatoriedade de convocar eleições, em caso de sua falta absoluta.

São lamentáveis expressões -e campanhas- surgidas do anti-chavismo nacional e internacional, já que em nenhum caso a sentença possa ser catalogada de “convalidação de uma usurpação”, como se a oposição tivesse sido despojada abusivamente de um poder que lhe pertencesse por direito. Até a OEA sabe que é impossível sustentar que o chavismo continua  no poder por ter dado um golpe de Estado: acaba de ganhar as eleições presidenciais de 7 de outubro e as de governadores em dezembro.

A direita regional e internacional aparece com muito mais capacidade de percepção política, mais consciente do suposto perigo Chávez, o chavismo e a Venezuela atual. O uso sistemático do “latifúndio midiático” a seu serviço para desprestigiar a Venezuela é o melhor expoente.

Na última década ocorreram fatos relevantes, como o fato de grandes maiorias deixaram de ser objeto de política para passar a ser sujeitos de política e, ao mesmo tempo, uma maioria -tornada ninguém, inviabilizada por mais de dois séculos- hoje apoderada e consciente que, como cidadãos, têm direitos, os mesmos que lhes foram usurpados durante décadas.

Isto por sua vez fala da construção -parcial, paulatina- de uma identidade nacional (muito além das regionais) junto a uma crescente auto estima, o que vai consolidando a descolonização do imaginário. As faces, imagens e vozes invisibilizados pelas elites governantes e os meios de comunicação comercial, começam a aparecer para ficar, com seus sotaques e cantares, sua diversidade étnica e cultural.

Depois de dois séculos de se ver com olhos estrangeiros “Temos que terminar de apagar as fórmulas estranhas a nós mesmos”, dizia Chávez, os venezuelanos começam a se ver com seus próprios olhos. Aparece a noção de nação e de soberania, além do conceito de territorialidade e, se vai assumindo, ao mesmo tempo, a identidade latino-americana, integradora, integracionista, além do discurso oficial.

Uma nova etapa

Esse 8 de dezembro começou -sem que ninguém o decretasse- uma nova Venezuela, que deve superar a situação de extrema afetividade e suspensão do juízo crítico que, como disse Maryclén Stelling, é uma “rede afetiva -medo, amor, ódio e violência- que media nossa relação com a realidade e em consequência afeta a percepção da mesma.

Hoje, manejados pela emoção e alentados e alimentados por certos meios de comunicação, setores políticos assumem e se fazem cúmplices de uma naturalização e banalização da violência, perdendo, em consequência, a sensibilidade coletiva com relação à violência destrutiva em todas suas modalidades, física, psicológica, emocional ou política, assevera Stelling.

O certo é que quando a violência se despoja de seu caráter de excepcionalidade se esfumam seus limites e desaparecem os critérios para avaliá-la. Neste jogo “amigo-inimigo” alguns meios induzem ao ódio e alimentam a violência. A política concebida como um exercício bélico não reconhece a pluralidade nem a diversidade.

A oposição, sem projeto, sem futuro?

Armando Durán, ex-ministro de Carlos Andrés Pérez, observa que, em uma “ambiguidade suicida”, muitos na oposição seguem ainda as normas que definiam aquele falso bipartidarismo adeco-copeyano[1] que morreu definitivamente nas eleições de 1998, de adversários sem inimizade, que diluíram suas diferenças na tranquila alternância, tudo perfeitamente de acordo com o desenho traça pelos estrategistas de Washington para harmonizar na Venezuela, como faziam nos Estados Unidos democratas e republicanos, os tópicos e uma “democracia” bipartidarista moderna.

Há um por cento (1%) pseudo-radical (segundo Olivares do El Universal), que superestima sua força devido ao twitter, enquanto outros se perguntam se terão de continuar a exigir que Chávez regresse ou que se publiquem seus exames médicos e especulam sobre o amor-ódio entre Diosdado Cabello e Nicolás Madura, ou preparar-se e se por a trabalhar desde já para melhorar suas possibilidades diante das próximas eleições presidenciais.

Porém resulta que esse 1% pseudo-radical conta, por enquanto, com o alto-falante de uma imprensa opositora cartelizada e, numa nova tentativa de subverter a ordem e desrespeitar a Constituição fez circular o documento “Manifesto da Sociedade Democrática Venezuelana e a sua Força Armada Nacional Bolivariana”, firmado entre outros por Oscar Lusinche,

Enrique Tejera Paris, Pedro Pablo Vidal, Oswaldo Álvarez Paz, Maria Corina Machado, Diego Arria, Marciel Granier, Luis Henrique Otero e Oscar García Mendoza.

Durante os anos bolivarianos, estes meios cartelizados tentaram assumir a competência de decidir quais leis deveriam ser consideradas válidas e quais não; por sua própria decisão difundiram como verídicos atos que não haviam ocorrido (a renuncia do presidente); designaram e destituíram dirigentes políticos nas filas opositoras, e tentaram usurpar a função jurisdicional desconhecendo repetidamente tanto atos administrativos como resultados eleitorais e sentenças dos tribunais, formulando por sua vez sentenças mediáticas inapeláveis contra pessoas e instituições, recorda Luis Britto García.



[1] Venezuela possuía dois partidos hegemônicos: Ação Democrática e Copei.