1. Em 20 de maio, data estabelecida pelo Conselho Nacional Eleitoral para realizar a eleição presidencial — e a de deputados às Assembleias Regionais e Câmaras Municipais — está perto. Faltam menos de 30 dias para o povo venezuelano votar. Mas a sensação que existe no país é de que praticamente a sorte está lançada, a menos que surja algo imponderável.

José Vicente Rangel

2. A que se deve esta sensação? Sem dúvida, à ausência de uma oposição. Do que se conhece com o nome de oposição, ou seja, um movimento coerente, sério, responsável, confiável. Uma oposição que se projete como alternativa. Que agrupe em seu núcleo os setores críticos do governo que preside Nicolás Maduro e um projeto de país diferente do que representa o processo bolivariano.

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3. Dirão a mim que o vazio não é total, o que é verdade, já que há várias candidaturas que concorrem, mas não representam o que pode ser considerado como uma opção conciliada, capaz de representar um vasto sentimento coletivo. Isto não significa reivindicar a polarização, a qual não foi nem será em momento algum a expressão de democracia, mas, simplesmente, ser garantia de ordem e respeito institucional.

4. Portanto, me refiro à participação de tendências sólidas da opinião pública, com capacidade para estimular o eleitorado, com uma base organizada, com apresentações sérias e de fundo, com claras definições em políticas econômicas, sociais, externas e de segurança interna. Nada disso existe atualmente, como movimento organizado, no campo da oposição, atualmente transformada em um terreno baldio, cheio de contradições. Porque o conceito de oposição praticamente sumiu do cenário nacional. Não porque o governo acabou com ele, mas porque se auto-eliminou devido à acumulação de erros em que incorreu sua direção.

5. O último erro — por enquanto! — do que ainda fica de oposição na Venezuela, foi cometido pela liderança que a controlava, o miolo blindado da extinta Mesa da Unidade Democrática (MUD), que decidiu de forma inconsulta, e fora de toda lógica, abster-se no atual processo eleitoral. Uma oposição que vinha da suicida experiência do protesto, que se esgoelou pedindo eleições, insolitamente decidiu recusar-se a participar de um evento convocado de acordo com todas as regras de jogo da democracia. Ou seja, incorreu em um ato que estimulou a decepção em sua base eleitoral, em uma torpeza que somente se explica pela submissão de seus dirigentes aos ditados provenientes da combinação Governo estadunidense – União Europeia – Grupo de Lima.

6. É Henry Falcón — e outros — a oposição? Por muito respeitável que pareça o esforço que faz o ex-governador de Lara, e considerar, ao mesmo tempo, que seu gesto constitui uma demonstração de audácia, esta decisão não é vista pela maioria do eleitorado como expressão global de uma oposição. Poderia ser considerada como uma contribuição individual — e de um grupo de cidadãos, que confirma a ausência de oposição no país, pois o curso da atual campanha seria outro se esta participasse unida e coesa. Mas a verdade é que não é. O voluntarismo não é suficiente e os resultados do 20/M o confirmarão. Por isso o título desta coluna: a sorte está lançada.

7. A candidatura de Nicolás Maduro irá se impor. Não só porque a oposição se destaca pela ausência, mas porque há uma obra que, além de erros e falhas, tem um profundo conteúdo social e chegou ao ponto mais fundo do povo. E a respeito da candidatura de Henry Falcón, possivelmente consiga uma respeitável votação, que automaticamente o tornaria líder da oposição que surja dos escombros, a qual fracassou por sua infinita torpeza.

8. Não sei se o governo nacional está fazendo um acompanhamento da atividade que desenvolve o Encarregado de Negócios dos Estados Unidos no país, Todd Robinson. Mas a verdade é que está se mexendo como um peso pluma. Exemplos: apresenta-se nada menos que na Aula Magna da Universidade Central da Venezela (UCV) com uma mensagem cheia de insinuações suspeitas. Depois se dirige nada menos que ao interior de Barlovento, a Birongo, a compartilhar com o pessoal de uma chocolataria. Depois, com toda a equipe da embaixada, visita a emblemática Praça Bolívar de Caracas. E, simultaneamente, a sede da Assembleia Nacional em desacato. Toda uma afronta à Assembleia Nacional Constituinte. Um contundente desconhecimento da legalidade imperante no país…

9. Um amigo que conhece o funcionamento da política e as instituições dos EUA, a quem perguntei o que opinava sobre a folha de rota do embaixador Robinson, respondeu que não era uma provocação pessoal o que fazia, porque a atuação dos representantes diplomáticos no exterior está monitorada, no detalhe, pelo Departamento de Estado — ainda mais em um caso como Venezuela. Então, o que está por trás da atividade de Mr. Robinson? Do chocolate de Birongo e do interesse pela Assembleia Nacional em desacato? …

* político, advogado e jornalista venezuelano