O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém desde agosto de 2017 a obsessiva intenção de invadir a Venezuela, como revelou um alto funcionário da Casa Branca em declarações à agência de notícias Associated Press (AP).

Por Stella Calloni *

Declarações feitas precisamente após a viagem do vice-presidente Mike Pence em junho por vários países como Equador, Brasil e Guatemala solicitando apoio para seus planos e em momentos em que a mão de Washington está por trás da violenta tentativa golpista para derrubar o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, democraticamente eleito em 2016.

De acordo com a fonte citada pela AP, Trump surpreendeu todos e preocupou alguns funcionários que estavam em uma posição mais moderada. Isto parece apontar que estão ajustando o cerco interventor contra a Venezuela.

A situação foi denunciada também pelos presidentes Nicolás Maduro e Evo Morales, da Bolívia, ante uma série de evidências e o fracasso dos Estados Unidos em todas as tentativas por derrubar o governante venezuelano utilizando a Organização dos Estados Americanos (OEA), o Grupo de Lima e os governos cúmplices da região e da Europa. As últimas ações, incluindo a viagem de Pence, serviram para ajustar detalhes coincidindo também com o armado “Golpe de Mestre” imaginado pelo Comando Sul, que começou muito antes, já que Venezuela denunciou nos últimos anos estes planos de intervenção militar por parte dos Estados Unidos, também sustentados como uma ameaça permanente por altos funcionários de Washington.

O documento “Golpe de Mestre”, que leva a assinatura do chefe do Comando Sul, Kurt Tidd, se baseou em todas as tentativas golpistas na Venezuela desde 2002 em adiante.

Especialmente após a morte do presidente Hugo Chávez, em 2013, se multiplicaram as ações esperando que Maduro fosse derrotado mediante “o golpe brando” das violentíssimas guarimbas como as de 2014 e 2017, que deixaram morte e destruição no país.

Este golpe foi derrotado pela decisão governamental de chamar a eleições para eleger uma Assembleia Constituinte, que acompanhou o povo desafiando obstáculos e adversidades, contra o poder hegemônico e sua guerra econômica e midiática a nível mundial.

O documento contém em sua segunda parte de um esquema militar de intervenção contra a Venezuela para ser ativado antes do fim de 2018 se a oposição venezuelana não conseguir derrubar Maduro por outras vias, o que ficou definitivamente descartado diante do folgado triunfo do presidente venezuelano nas eleições de maio deste ano, que Washington chamou a não reconhecer, arrastando nesta decisão países europeus e da região, liderados por Colômbia, Argentina e Brasil.

A mobilização que se adverte nos últimos dias demonstra que está se apertando o cerco no esquema que tínhamos advertido anteriormente quando se difundiu o documento do Comando Sul, o qual indica que o alerta dado então era absolutamente válido.

A imprensa do Ministério de Relações Exteriores argentino anunciou a saída no dia 23 de junho de uma equipe de voluntários “formada por médicos e especialistas em atenção primária de saúde”, com destino à cidade colombiana de Cúcuta, departamento Norte de Santander, na base da Ponte Internacional Simón Bolívar, fronteira entre esse país e Venezuela.

Tal ação sob a coordenação da Comissão de Capacetes Brancos da Chancelaria Argentina, para atender ‘migrantes venezuelanos” que saíram de seu país como consequência da grave situação político-institucional’, segundo assinala o comunicado, o que é mais que duvidoso.

A ajuda médica seria coordenada através das Unidades de Resposta Sanitária (URSA), formadas por equipes de saúde de “especialistas voluntários argentinos”, para atender em um acampamento em Cúcuta, “a fim de dar respostas à recente ‘crise humanitária’ surgida nesse limite fronteiriço”.

Após explicar o projeto médico para a suposta atenção a refugiados, assinala que as equipes trabalharão com medicamentos e insumos “doados pelos sócios dos Capacetes Brancos do setor privado”.

Acrescenta que a Equipe URSA estará integrada, entre outros, por B’nai B’rith Internacional; OSDE – primeira rede de serviços médicos assistenciais da Argentina; Cemic (Centro de Educação Médica e Investigações Clínicas da Argentina); Alami – Associação Latino-Americana dos Sistemas Privados de saúde; e CSIS – Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Só em recordar que B’nai B’rith é uma organização sob a manipulação dos setores mais fundamentalistas de Israel e pesquisar os outros “sócios”, já sabemos de que se trata esta “missão humanitária” que encobre o mais brutal intervencionismo.

O presidente dos Capacetes Brancos, embaixador argentino Alejandro Daneri, também assinou um acordo com o ministro de Governo do Panamá, Carlos Rubio, para o Centro Logístico Regional de Assistência Humanitária (Clrah) durante a reunião da 6ª Plataforma Regional para a Redução do Risco de Desastres (RRD) nas Américas, realizada em Cartagena, Colômbia, entre os dias 20 e 22 de junho.

O Acordo sobre Clrah tem como objetivo reforçar o intercâmbio e a cooperação entre as partes em matéria de assistência humanitária internacional, a preparação para a ajuda ante emergências internacionais e a redução do risco de desastres, (…) intercâmbio de informação e o desenvolvimento e fortalecimento das capacidades logísticas, tudo isto projeto do Comando Sul.

Para os que duvidaram que Argentina e Brasil fizessem parte direta deste plano, uma das respostas mais fortes foi a manobra conjunta Amazong.log 17 realizada em Tabatinga, território brasileiro no Amazonas, fronteira com a Colômbia, com participação de tropas estadunidenses, colombianas, brasileiras e peruanas, e, como observadores, 19 países da região.

Naquele momento, entre 6 e 7 de novembro de 2017, houve um enfoque dos partidos opositores ao governo de fato de Michel Temer na Câmara de Deputados pela participação das forças armadas brasileiras, considerando a possibilidade de que estas terminassem subordinadas aos Estados Unidos.

 

Bases militares dos EUA

 

Na Argentina, o presidente Mauricio Macri tem feito concessões leoninas nos temas de segurança e militares quase imediatamente desde sua chegada ao governo (10/12/15), prometendo todo seu apoio à política ingerencista e intervencionista dos EUA na Venezuela, e assinando acordos que não foram enviados ao Congresso e que comprometem gravemente a soberania do país. Outros posteriores revelam a subordinação militar da administração macrista a Washington.

De fato, já começou a se construir uma base militar estadunidense na província de Neuquén, no estratégico sul patagônico, bem perto da reserva de gás de Vaca Muerta e financiada pelo Comando Sul com “ajuda humanitária”.

Um modelo de “ajuda” do Programa de Assistência Humanitária do Comando Sul dos EUA (HAP) concebido como “um esforço conjunto entre dois países amigos” é o caso do Peru, onde os Estados Unidos mantêm cada vez mais tropas em suas bases nesse país. E inaugura os chamados Centros de Operações de Emergência Regional (COER) através do programa HAP, investindo milhões de dólares em uma das mais silenciadas ocupações militares de um país latino-americano.

A ajuda humanitária em Neuquén pressupõe um investimento de US$ 2 milhões e incluirá um heliporto apto para helicópteros militares. Será financiado em sua totalidade pelo US Southern Command (Comando Sul) através da Embaixada dos Estados Unidos.

Calcula-se que até 2029 os EUA investirão cerca de US$ 100 bilhões em equipamentos e em infraestruturas nesse campo não convencional e evidentemente este estará “muito bem protegido” pela nova base militar.

Após a visita do então secretário de Estado Rex Tillerson à Argentina, em fevereiro passado, e ajustando seu plano para a intervenção militar que pretende apresentar ao mundo como uma ação de “forças conjuntas”, o ministro de Defesa, Oscar Aguad, anunciou a criação de um “batalhão de Forças de Ação Rápida”, esquema incorporado pelo Comando Sul quando ainda tinha sede na Zona do Canal do Panamá.

Desde 2001 já existia o projeto estadunidense para constituir uma força militar latino-americana, sob seu controle, em um plano com as forças armadas da Colômbia.

A invasão à Venezuela é chave dentro do projeto geoestratégico para recolonizar a América e assegurar “o controle direto de seus recursos e reservas naturais”. Como foi o golpe de Estado judicial, midiático e parlamentar no Brasil em 2016, a guerra também midiática e judicial que incluiu tentativas golpistas na Argentina e um milionário investimento em dólares para desacreditar o governo de Cristina Fernández de Kirchner, com uma desmesurada ingerência nas eleições de 2015.

Da mesma maneira é a rede de bases que o governo de Macri deixará os Estados Unidos instalarem além de Neuquén, duas na Terra do Fogo, a de Tolhuin, para a qual ressuscitaram um decreto de 1995, que permitia uma base “científica” de vigilância de explosões nucleares.

E a outra em Ushuaia, a capital dessa província onde a ministra de Segurança Patricia Bullrich e a governadora Rosana Bertone acordaram criar um Centro de Inteligência Regional no dia 31 de outubro, quando estava no local um barco da NASA e haviam chegado cientistas e militares dos EUA com esse objetivo.

Em 23 de fevereiro deste ano, o ministro de Defesa Aguad anunciou o projeto oficial de instalar em Ushuaia um centro logístico para abastecer as bases da Argentina e outras nações estabelecidas na Antártida, no local onde está a histórica base da Armada, como informou o diário Clarín.

Nessa perspectiva, Ushuaia se converteria na porta de acesso natural à região, “e através da infraestrutura adequada possibilitar o emprego dos meios necessários para o controle dos espaços marítimos, insulares e antárticos, contribuindo decisivamente no desenvolvimento e no crescimento da Patagônia”.

Isto é uma magnífica pilhagem para os Estados Unidos colocar-se em frente às Malvinas, ilhas argentinas ocupadas pela Grã-Bretanha desde 1833 e onde o ocupante instalou uma grande base militar violando resoluções internacionais e apropriando-se do setor antártico argentino.

Recentemente, Aguad anunciou que esta base logística significará rendimentos milionários para o país. O mesmo está ocorrendo em missiones, onde se instalou uma força da DEA nessa província fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, no território da chamada Tríplice Fronteira, sobre o imenso Aquífero Guarani.

E também nas fronteiriças províncias de Salta e Jujuy, no noroeste, zonas de grandes riquezas minerais, limítrofes com a Bolívia, nas quais supostamente vigiarão o narcotráfico.

Em junho passado, tropas estadunidenses chegaram à Argentina, e o governo de Macri, diante dos questionamentos da imprensa local, sustentou que iam realizar manobras logísticas.

Mas em dezembro de 2016, o mesmo governo havia assinado um acordo com a Guarda Nacional de Geórgia (forças especiais do Comando Sul) autorizando estas a transitar em território argentino, sem prévia autorização.

Nenhum destes acordos foram debatidos nem aprovados pelo Congresso argentino. Vale recordar que no documento “Golpe de Mestre” se explicava que Washington contava com a Argentina e seus estratégicos e seguros portos.

No caso da Colômbia, o presidente venezuelano Nicolás Maduro denunciou em 15 de junho que seu homólogo colombiano Juan Manuel Santos preparava um plano para gerar um possível conflito armado entre ambas nações, e alertou aos altos comandos sobre uma série de provocações e incidentes na fronteira e no interior do país, o que poderia ser o início da invasão.

Também no Panamá – que figura entre os apoios chave no documento -, desde 2017 jornalistas do país denunciaram a chegada de tropas dos Estados Unidos, especialmente da Força Aérea, tendo aceito o governo assumir a responsabilidade e eximir o de Washington de “qualquer demanda que se estabeleça (contra) o pessoal dos EUA em relação a sua missão no Panamá”.

Em fevereiro de 2018, o Movimento Alternativa Popular (MAP) denunciou que desde o dia 2 de janeiro estavam desembarcando tropas no Panamá e condenou os exercícios militares norte-americanos “Novos Horizontes” em solo da nação centro-americana.

Considerou que era uma clara mensagem de Washington “contra qualquer política panamenha que não se subordine aos interesses desse país. Ademais, coloca o governo panamenho no centro dos planos de invadir militarmente o país irmão Venezuela”.

As tropas não se foram e estão estacionadas especialmente na zona do Darién, fronteira com a Colômbia. Isto é parte do cenário armado cuidadosamente pelo império, que em 20 de dezembro de 1989 invadiu o Panamá, um país de somente dois milhões de habitantes, e em 1983 tinha invadido a ilha de Granada, de pouco mais de 400 quilômetros quadrados, prenunciando o que seria sua atividade no século 21 no mundo e em Nossa América.

*Prestigiada intelectual e jornalista argentina, colaboradora da Diálogos do Sul