A intervenção dos fundos abutres BlackRock e Templeton revela a mão do ministro de Finanças Luis “Toto” Caputo por trás da saída, já que é um velho conhecido destes fundos abutres.

Por Rodolfo Koé Gutiérrez, via Estrategia.la

O governo argentino conseguiu renovar a totalidade dos títulos de dívida do Banco Central (chamadas lebacs) que venceram nesta terça-feira (15/5) – claro que a uma taxa de juros altíssima –, e graças à negociação com os fundos abutres (BlackRock e Templeton), que trouxeram dólares frescos do exterior.

BlackRock e Templeton pediram que abram a emissão de bônus em pesos a taxa fixa para ajudar o governo. O portal La Política Online revelou que se comentava, inclusive, que por trás da solução houve alguma referência à Reserva Federal, talvez acionada após a comunicação de Donald Trump com Macri nesta segunda-feira: foi um resgate forte, já que ingressaram ao mercado, para sustentar esses bônus quase 3 bilhões de dólares, ou 73,2 bilhões de pesos.

A intervenção dos fundos BlackRock e Templeton revela a mão do ministro de Finanças Luis “Toto” Caputo por trás da saída, já que é um velho conhecido deste fundo “abutre”. No último fim de semana, Caputo tomou as rédeas do tema cambial e impôs a Federico Sturzenegger, presidente do Banco Central, a estratégia de disponibilizar 5 bilhões de dólares com um dólar a 25 pesos, um requisito sugerido pelo fundo BlackRock para entrar, segundo o portal.

O ministro de Finanças Luis “Toto” Caputo

Ainda não está claro o quão sustentável será esta nova calma, e qual é o interesse real destes fundos ao aceitar esta solução, já que os bônus que compraram não são um negócio favorável: os juros finalmente são de 20% para 2023 e 19% para 2026, uma taxa não muito atrativa. Por isso o mercado analisava que talvez haja por trás da decisão um jogo de interesse “geopolítico” para salvar Macri.

O fundo Templeton foi o primeiro a aceitar o acordo, graças as conversas com Gustavo Cañonero, um ex-funcionário do FMI que é sócio do fundo Templeton através do Grupo SBS, que publicou, há alguns dias, um sugestivo artigo no qual tentou inocentar o FMI sobre a desvalorização em curso – quando é de conhecimento público que formava parte das exigências do Fundo –, um discurso que logo foi repetido pelo próprio porta-voz do organismo.

E na segunda-feira (14/5) de noite, Cañonero participou de um programa televisivo de linha editorial governista, para levar o mesmo discurso tranquilizador. Impossível não pensar que esta campanha midiática foi parte da coordenação que se completou na terça.

 

Torrando as reservas

 

O governo sacrificou 1,1 bilhão de dólares de reservas para manter o tipo de câmbio abaixo dos 25 pesos

O governo sacrificou 1,1 bilhão de dólares de reservas para manter o tipo de câmbio abaixo dos 25 pesos, aumentou a taxa de juros dos títulos de dívida de 26 a 40% na licitação primária, interveio no mercado de futuros de dólar, aumentou o lucro dos bancos a partir da redução de encaixes e pôs à disposição dos grandes investidores cinco bilhões de dólares para frear a corrida.

“Em dois anos, o pagamento de juros equivale a 9 mil centrais nucleares como a de Atucha, 500 escolas ou 57 milhões de aposentadorias. Foi em 2016 que o Banco Central emitiu títulos para estimular a chegada de capitais especulativos. A ferramenta necessita de altas taxas de juros, para alimentar a bicicleta financeira. Será uma bomba a ponto de explodir?”, se pergunta o Observatório de Políticas Públicas da Universidade de Avellaneda (Undav).  

Obviamente, a operação custou muito caro, já que o BCRA arcar, em junho, com mais 800 milhões de dólares em juros. Ou seja, o desequilíbrio continua latente e não está resolvido, apenas foi adiado para um futuro incerto.

Enquanto isso, os Estados Unidos registraram uma alta da taxa de juros, e o dólar se fortaleceu com relação às demais moedas de países emergentes. Na bolsa de valores de Buenos Aires essa moderação foi explicada com pela especulação financeira com a chegada de dólares frescos, em especial do BlackRock, um dos maiores fundos de investimento do mundo, que move ativos equivalentes a 10 vezes o PIB da Argentina.

Sturzenegger, é o presidente do BCRA

A um mês atrás, este fundo vendeu grande parte de seus ativos em títulos para comprar dólares a 20,50 pesos e sair do país, e retornar com um câmbio de 25 e uma taxa de juros que é quase o dobro: uma demonstração do que o mercado chama de bicicleta financeira.

A aposta é puramente especulativa e se vincula à obtenção de lucros extraordinários com a taxa de juros de 40%, enquanto dure o teto do dólar imposto pela autoridade monetária. “A situação gera um círculo vicioso, porque nenhum desses investidores quer ser o último a sair quando acabem as divisas do Banco Central, e adianta uma nova pressão na praça cambial nas próximas semanas”, afirma o diário Página/12.

Em meados de junho haverá uma nova licitação de títulos de dívida. O aumento das taxas de juros até 40% gerou uma carga de juros de 800 milhões de dólares.

“Em 2016, os juros representaram 1,4 pontos do PIB, mas em 2018 as estimações indicam que o peso dos juros por títulos “lebacs” sobre o PIB subirá aos 3%”, explicou o economista Santiago Fraschina, do Observatório da UNDAV. “Nenhum país se encontra com o grau de vulnerabilidade que a Argentina tem hoje”, completa.

 

Aumento das tarifas

 

Em outro âmbito, os aumentos de tarifas de serviços básicos (água, luz, gás, etc) está afetando duramente não só as pessoas como também as pequenas e médias empresas. No último ano, foi preciso incrementar em médio entre 8 e 14 vezes a quantidade de vendas necessárias para cobrir o custo energético, segundo a Confederação Geral Empresarial.

“Uma indústria petroquímica que necessitava vender 20 litros de azeite hidráulico para pagar suas contas de luz em 2015, agora em 2018 precisa vender 390 litros do mesmo produto, ou seja, 14 vezes mais. A indústria têxtil também mostrou valores alarmantes: quando uma empresa, em 2015 necessitou vender 16 mil metros de tecido para arcar com seus gastos básicos, agora em 2018 precisa de 200 mil metros vendidos para cobrir esses mesmos gastos”, exemplificou a entidade, em seu comunicado.

 

Rodolfo Koé Gutiérrez é jornalista econômico argentino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)