Os debates sobre a construção de um megaporto no lado do Pacífico do Canal de Panamá esquentaram depois que confirmaram que a licitação terá início no dia 22 de novembro

Osvaldo Rodriguez Martinez*

canal-de-panamaA oposição mais contundente veio do Colégio Nacional de Advogados (CNA), que diz que a execução do projetado Porto de Corozal é inaceitável por inconsulto e por atentar contra a vida e a saúde das comunidades do entorno. Além disso solicitou que se analise a legalidade da Autoridade do Canal (ACP) para essa questão.

A ACP não deu atenção aos protestos, às razões jurídicas, aos ecologistas nem às comunidades das áreas que serão afetadas, denunciou José Álvarez, presidente da CNA, que questionou as bondades da proposta e desafiou seus promotores a realizarem uma consulta nacional para que o povo decida.

O principal apoio é da própria ACP, notadamente do administrador, Jorge Luis Quijano, que em recente palestra a empresários defendeu a necessidade de ampliar a capacidade portuário na costa do Pacífico, para atender a demanda das empresas de navegação que se utilizam do Canal.

O investimento aumentaria para 4.500 metros a capacidade em ambos portos de entrada do Canal, complementando a ampliação que está sendo realizada pela maior operadora mundial de portos, a PSA (Port Singapore Authority), disse Quijano.

É tão importante oferecer maiores condições de atracação no porto como é importante o movimento de contêineres nos pátios terminais, para satisfazer o aumento de tráfico de grandes barcos, que sem isso precisam fazer transbordo de cargas para barcos menores nos portos de Chile ou de Cartagena de Índias, na Colômbia.

Contudo o projeto Corozal, em teoria parece ser bem planejado, pois entre as exigências da licitação está o conceito de Porto Verde, com gruas elétricas, barreira acústica, acesso direto à ferrovia, passagem elevada e estacionamento de caminhões, entre outras pensadas para reduzir a contaminação.

Sobre o impacto nos manguezais e nas florestas dos 110 hectares previstos para as duas fases do projeto, a ACP, em coordenação com o Ministério do Ambiente, assegurou que como contrapartida haverá reflorestação em outras áreas do país. Contudo os ecologistas consideram que os danos ao ecossistema do lugar serão irreparáveis.

Por outro lado, o que parece provocar maior oposição, é o fato de colocar em mãos privadas um pedaço de território soberano resgatado do enclave colonial de Estados Unidos, a troca de um aporte direto ao erário público de uma média de apenas 25 milhões de dólares anuais durante duas décadas de concessão.

Mas parece que o caminho proposto pelos liberais é sem retorno, considerando as palavras do ex administrador da ACP, Alberto Alemán, em recente fórum:

“Panamá realizou um processo de privatização portuário que teve êxito”, disse lembrando que as atuais instalações contam com 23 por cento de todas as gruas pórticos da América Latina, e em seu conjunto tem mais capacidade que o porto de Santos, no Brasil, o maior da região.

O político Laurentino Cortizo, integrante do Partido Revolucionário Democrático, afirmou recentemente que Panamá é o décimo país mais desigual do mundo, tem “poucos com muito e muitos com pouco”, e alertou: “esses poucos, devem se preocupar”, em alusão às reações da sociedade diante dos abusos de poder.

O que se pergunta é se a necessidade real de um porto servirá para encher os bolsos dos que já têm muito, enquanto a maioria continuará tendo pouco?

*Prensa Latina, de Panamá especial para Diálogos do Sul