O golpe foi dado porque estávamos sendo vitoriosos na luta contra o subdesenvolvimento e na organização de uma sociedade menos injusta, mais solidária. O grande instrumento, o pólo de desenvolvimento, era a Petrobrás, com seu apoio à indústria naval e com a exigência de conteúdo nacional nos produtos de seus fornecedores.

Ceci Juruá*

Em janeiro de 2015, ou fevereiro, nos reunimos no Rio de Janeiro e em São Paulo, a convite da Fundação Perseu Abramo, para analisar a situação geral do Brasil, a partir da tentativa de anulação dos resultados da eleição de outubro de 2014, tentativa liderada pelo mineiro, o candidato derrotado na disputa presidencial. O grupo era grande e dele faziam parte algumas pessoas ilustres da Academia e do Governo. Por exemplo Marco Aurélio Garcia, já falecido, e L.G. Belluzzo. Eu estive nas duas reuniões.

Prevaleceu no grupo a opinião que não havia ainda crise econômica no Brasil, apesar do déficit primário registrado em 2014, muito reduzido. Havia sim uma grande crise política, instalada por iniciativa do PSDB e da Lava Jato, cujo começo é datado de março de 2014. Sabíamos também, com base na história de nosso país, que toda crise política pode se transformar em crise econômica, principalmente se os estratos financeiramente privilegiados estiverem a favor de uma mudança na orientação da política econômica e, ainda, se estiverem de braços dados com forças imperiais, isto é, com aqueles responsáveis secularmente pelas veias abertas da América Latina. Foi isto que aconteceu de fato. Criaram o impasse político, apoiados no Judiciário.

As forças do Império desencadearam a guerra econômica — queda de preços de alguns dos principais produtos exportados, perseguição às nossas maiores empresas brasileiras e atores vitoriosos no mercado internacional, aumentos de preços no mercado interno (a inflação), os avisos ameaçadores das agências de risco, etc, etc. A crise foi se agravando. Em seguida, a distribuição de “favores” aos membros do Congresso Nacional, fez o resto…

No artigo da Revista Diálogos do SulLava-Jato e desemprego: no Brasil, crimes de traição à Pátria seguem impunes”, as manipulações que viabilizaram o golpe de Estado são tratadas, brilhantemente, como crime de lesa pátria. Com o que eu concordo, em princípio.

Cada vez que tenho a ocasião de falar em público, explico que o golpe foi dado porque estávamos sendo vitoriosos na luta contra o subdesenvolvimento e na organização de uma sociedade menos injusta, mais solidária. O grande instrumento, o polo de desenvolvimento, era a Petrobrás, com seu apoio à indústria naval e com a exigência de conteúdo nacional nos produtos de seus fornecedores. Em alguns anos seríamos a QUINTA economia do mundo

*Ceci Juruá é colaboradora da Diálogos do Sul