As autoridades federais estadunidenses permitiram que alguns jornalistas visitassem o centro de detenção de famílias imigrantes de Dilley onde se encontram 1,2 mulheres e menores de 1 a 17 anos. Esta é a maior instalação desse tipo no país, e está localizada em um local inóspito, no sul do Texas, a cerca de 110 quilômetros (70 milhas) da cidade de San Antonio. Apesar do acesso, os jornalistas não puderam fazer perguntas às pessoas detidas.

Por La Jornada, México, via Carta Maior

Um menino de cabelo curto estava sentado placidamente, sorrindo, até que de repente se levanta e tenta pegar um brownie de uma bandeja próxima. Antes de abocanhá-lo, o doce escorregou de suas mãos e caiu no chão com guardanapo e tudo, provocando as gargalhadas de outras duas crianças que estavam ao seu lado.

Foi uma cena típica de uma cafeteria de uma escola primária, mas ocorreu dentro do centro de detenção de imigrantes de Dilley, uma das principais instalações onde se alojam as famílias sujeitas às severas políticas contra a imigração ilegal do governo de Donald Trump.

Nesta quinta (9/8), as autoridades federais estadunidenses permitiram que alguns jornalistas visitassem o centro de 20 hectares, onde se encontram 1,2 mulheres e menores de 1 a 17 anos. Esta é a maior instalação desse tipo no país, e está localizada em um local inóspito, no sul do Texas, a cerca de 110 quilômetros (70 milhas) da cidade de San Antonio. Apesar do acesso, os jornalistas não puderam fazer perguntas às pessoas detidas.

Há outro centro de detenção, em Karnes City, também no Texas, que aloja 630 homens com seus filhos, e um terceiro menor, na Pensilvânia, com homens e mulheres, com seus filhos.

As cifras oficiais conhecidas nesta semana refletem a pressão enfrentada pela rede de centros de detenção do serviço de imigração, que tem capacidade para somente 3 mil famílias aproximadamente. Em julho, as famílias detidas eram 9258, 29,5% das 31303 prisões realizadas pela Patrulha de Fronteiras. Em junho foram 27,6% do total de detenções.

 

Centro de detenção de imigrantes de Dilley

As políticas de “tolerância zero” do governo de Trump, incluindo o processo penal dos estrangeiros que cruzam a fronteira ilegalmente, deu lugar à separação de famílias, procedimento que foi interrompido quando o clamor do público fez com que Trump emitisse um decreto suspendendo a prática, em junho. Aproximadamente 10% das famílias de Dilley se reuniram após terem sido separadas, mas não mostram sintomas de traumas diferentes dos de outras famílias clausuradas, segundo Daniel Bible, diretor do escritório de San Antonio do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (conhecido por sua sigla em inglês: ICE).

“Creio que o que se vê ali é o comportamento típico dessa gente”, disse Bible. “Não percebemos mudanças”.

Muitas famílias detidas em Dilley chegaram até lá fugindo da violência dos grupos narcotraficantes em seus países, particularmente Guatemala, México, El Salvador e Honduras. Buscam asilo nos Estados Unidos, um processo que pode demorar anos, e afirmam que suas vidas correrão perigo se são deportadas.

A instalação recebe cerca de 110 novos migrantes novos diariamente, a maioria capturados no vale do rio Bravo. Atualmente, Dilley só aceita as mães acompanhadas dos seus filhos, mas somente se elas não têm antecedentes criminais.

As mulheres e meninas a partir de 11 anos devem realizar exames para verificar se estão grávidas em sua chegada. A administração também assegura que todos os detidos estão sujeitos a exames médicos e dentais regulares, e recebem vacinas. Cartazes espalhados pelo lugar mostram um Pinóquio com o nariz comprido e uma legenda em espanhol dizendo que “o rumor número um que vocês escutaram sobre as vacinas não é verdade” – se refere à crença de que as imunizações podem causar efeitos nocivos às crianças.

Os imigrantes permanecem em Dilley cerca de 15 dias. Um tribunal federal proibiu o governo de reter as famílias por mais de 20 dias, embora existam sim alguns casos de pessoas que ficam por mais tempo – a administração afirma que alguns desses casos são de pessoas que ficam por vontade própria, enquanto apresentam apelações quando não passam pela primeira entrevista do processo de asilo. Michael Sheridan, empregado do ICE que dirigiu a visita dos jornalistas, disse que a maioria das pessoas que chegam a Dilley passam pela entrevista inicial e são liberadas para que vivam com parentes que já residem em distintas localidades dos Estados Unidos. Nenhuma dessas informações pode ser comprovada diretamente com os detidos, devido à proibição a entrevistá-los.

Com um orçamento anual de 156 milhões de dólares, Dilley consiste numa série de complexos que aloja trabalhadores da indústria petroleira. Mães e filhos são legados a diferentes setores com nomes de animais, onde compartilham espaços grandes, do tamanho de containers – que já não são mais cercados por grades, como nos vídeos revelados em abril, mas ainda assim funcionam como alojamentos prisionais com pequenas camas e banheiros comunitários.

A cafeteria oferece três refeições diárias e tem um bar com saladas, arroz e feijões, e também pequenos fornos para esquentar tortilhas, que sempre estão disponíveis. “A receita mais popular é a com nuggets de frango”, segundo Sheridan. Há pátios com brinquedos para as crianças e um setor onde se pode cortar o cabelo, e uma biblioteca com cerca de mil livros em espanhol e em inglês, onde os detidos também podem usar a internet para poder ver correios eletrônicos, sem acesso a redes sociais.

Há um setor onde as crianças têm aulas, seguindo os programas escolares do Texas, mas sem a obrigação de jurar lealdade à bandeira estadunidense, como nas demais escolas do estado.

A administração informa que as famílias têm liberdade parcial de movimento dentro do complexo, e não precisam usar uniformes. “Isto não é uma penitenciária, é algo meio informal”, afirmou Sheridan.

Contudo, as agrupações defensoras dos direitos dos migrantes reclamam que os centros de detenção de famílias, incluindo o de Dilley, não possuem pediatras disponíveis durante as 24 horas. Há três médicos na instalação, que geralmente trabalham durante as horas úteis. No resto do dia, há outro pessoal médico que atua quando é necessário.

Katy Murdza, do Dilley Pro Bono Project, que colabora com os migrantes detidos, disse que as crianças que precisam de remédios devem fazer filas de horas em uma farmácia que fica em dos setores do complexo. Também disse que as aulas não estão preparadas para ajudar a menores que falem outro idioma que não seja o espanhol como o idioma maia – usado por alguns migrantes da Guatemala ou do sul do México.

“Creio que todas as famílias que vêm aqui estão traumatizadas”, manifestou Murdza, que reclamou que a administração prepara o local para as vistorias de jornalistas e organizações de direitos humanos. “Conhecemos relatos de pessoas que lamentam por terem que enfrentar essas condições, mas que o fazem porque não têm alternativas, pois vêm de lugares onde suas vidas e as de todos na família estão em grande risco”.

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli